Por que homens leem tão pouco mesmo dominando listas de mais vendidos?
Levantamento da CBL indica que apenas 39% dos homens consumiram livros no ano passado, contra 61% de mulheres
atualizado
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Uma rápida busca no Google com o termo “autores mais famosos do mundo” revela um padrão histórico: homens ocupam muito mais espaço do que mulheres na literatura. Machado de Assis, Fiódor Dostoiévski, Charles Dickens e Edgar Allan Poe dominam as sugestões, enquanto as mulheres aparecem em menor número — com destaque para Jane Austen, Virginia Woolf e Clarice Lispector.
Com o passar das décadas, as mulheres foram rompendo esse padrão e conquistando espaço nas listas de mais vendidos, inclusive em gêneros além do romance. Mas uma pesquisa recente da Câmara Brasileira dos Livros (CBL) traz um dado surpreendente: embora os homens sejam maioria entre os autores mais lidos, são as mulheres que, em grande parte, compram e consomem esses livros.

O Panorama do Consumo de Livros de 2025, feito pela CBL com a NielsenIQ BookData, indica que apenas 39% dos homens consumiram livros no ano passado, contra 61% de mulheres. Mulheres pretas e pardas representam 30% do total de consumidores de livros e metade das mulheres que compram livros.
“Por um lado, os resultados demográficos rompem alguns paradigmas e permitem que o setor desenvolva ações mais objetivas, direcionadas a quem de fato consome. Por outro, esses mesmos dados impõem dois desafios importantes: compreender por que o público masculino apresenta baixo nível de consumo e identificar caminhos para engajá‑lo e ampliar sua participação” diz Mariana Bueno, coordenadora de pesquisas econômicas e setoriais da Nielsen BookData.
Por que homens não leem mesmo sendo tão lidos?
Em 2024 e 2025, a lista dos 10 livros mais vendidos do ano foi dominada por autores homens — sete dos dez títulos, em ambos os anos, tinham assinatura masculina, superando até Colleen Hoover, uma das autoras mais famosas do mundo na última década. O que explica, então, o fato de as mulheres consumirem obras escritas por homens mais do que os próprios homens?
Os 10 livros mais vendidos de 2025:
“Desde muito cedo, a leitura é frequentemente codificada, em muitos contextos, como uma atividade de reflexão e calma, associada aos padrões de feminilidade. Em contrapartida, a masculinidade tradicional é construída em torno da ação, da extroversão e do movimento físico. Na prática, isso significa que muitos meninos crescem sem modelos masculinos de leitura”, Levino Bertochi Junior, professor do curso de Marketing da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Eles veem as mães lendo, as professoras lendo, mas raramente os pais ou figuras masculinas de referência. O resultado é que, muitas vezes, o menino rejeita o livro não porque não gosta da história, mas porque ler não parece ser algo tão masculino.
Levino Bertochi Junior
O professor ainda lembra que “o público leitor é esmagadoramente feminino”, influenciando “diretamente a dinâmica do mercado editorial”.
“Isso cria uma situação curiosa em que o autor homem tem um público potencial que abrange todo mundo, enquanto a autora mulher depende quase exclusivamente das leitoras, uma vez que há evidências de que parte do público masculino apresenta menor predisposição a consumir obras escritas por mulheres. A força consumidora feminina é tão dominante que se estima que até 30% dos autores de literatura erótica sejam, na verdade, homens usando pseudônimos femininos para vender”, garante.
Forma de consumo
Roberta Machado, vice-presidente do Grupo Editorial Record, garante que o afastamento masculino da leitura é um “tema aceito e debatido no mercado editorial”. Segundo ela, a validação social na adolescência muda de meninas para meninos: enquanto garotos são instigados a fazer esportes, mulheres são levadas para o universo do conhecimento e, consequentemente, da leitura.
“Durante séculos, o mercado editorial foi controlado por homens que decidiam o que era ‘alta literatura’. Isso criou um cenário onde o homem escreve para ser validado pelos pares e pela crítica. Homens ainda ocupam muito espaço em prêmios e suplementos literários, o que mantém a percepção de que a autoria é masculina, mesmo que o sustento financeiro do setor venha, em grande parte, do bolso das leitoras”, explica.
“No gênero de romance (especialmente o romance contemporâneo), o marketing é agressivamente direcionado às mulheres, desde as capas até a linguagem das redes sociais. É difícil para muitos homens se verem em livros cujas campanhas de marketing não os convidam. Existe uma barreira de ‘pertencimento'”.
“Outra questão que aparece nas pesquisas é que as editoras têm investido muito em redes sociais muitas vezes como único canal de divulgação de um livro e sabemos, também por pesquisa, que os homens não são tão afetados pelo conteúdo dessas redes”, completa.
Bertochi usa o relatório do Ofcom, órgão regulador das comunicações do Reino Unido, para explicar que o público masculino consome leitura de um modo diferente: segundo ele, mulheres passam cerca de 33 minutos a mais por dia on-line do que os homens.
“Elas dominam plataformas como Instagram, TikTok e Pinterest. Os homens, por outro lado, dominam o Reddit, o X (antigo Twitter) e o Quora. Além disso, os homens passam 39% mais tempo consumindo notícias on-line do que as mulheres. Isso demonstra que há uma tendência dos homens a privilegiar uma leitura mais utilitária, fragmentada e voltada à aquisição de dados (notícias, fóruns, debates políticos), em detrimento da leitura imersiva e empática que a ficção exige“, finaliza.














