Marcia Tiburi lança o livro “Como Conversar com um Fascista” na Fnac

A filósofa participa de sessão de autógrafos e bate-papo nesta quarta (30/3). Ao Metrópoles, Marcia falou sobre a obra e comentou o atual cenário político brasileiro

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Simone Marinho/DVG/Reprodução
Filosofa e escritora Marcia Tiburi
1 de 1 Filosofa e escritora Marcia Tiburi - Foto: Simone Marinho/DVG/Reprodução

Doutora em filosofia, Marcia Tiburi não se restringe ao meio acadêmico. Durante cinco anos, ela participou do programa “Saia Justa’ (GNT) e, de 2002 pra cá, lançou mais de 10 livros, entre eles, “As Mulheres e a Filosofia” , “Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero” e os romances “Magnólia” e “Era meu esse Rosto”.

Nesta quarta (30/3), Marcia lança o livro “Como Conversar Com Um Fascista”, na Fnac do ParkShopping. A obra faz reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro. Ao Metrópoles, a filósofa e escritora falou sobre o atual cenário político do Brasil e contou como surgiu a #partidA, movimento de empoderamento feminista na política. Confira o bate-papo:

Como nasceu o livro “Como Conversar com um Fascista”?
O livro nasce de anos de pesquisa acadêmica e de observação da cultura política e social brasileira. O título revela uma ironia, já que o fascista como tipo psicopolítico é justamente aquele que não se abre à conversa, muito menos ao diálogo. A questão fundamental do livro, portanto, é o experimento crucial do diálogo como método subjetivo de resistência em uma época em que os preconceitos crescem e a linguagem empobrece. ‘Se não pudermos conversar com um fascista que, pelo menos, não nos tornemos um’, é o que o livro busca consolidar ao nível da autorreflexão ética. Ao mesmo tempo, o livro tenta sinalizar para momentos exemplares em que a exposição da mentalidade nos faz pensar em fascismo. O livro pretende compreender a estrutura do fascismo atual em sua base cotidiana. Ou seja, por meio dele, pergunta-se como nos tornamos fascistas? Como a nossa subjetividade conseguiu isso? Quais as condições objetivas para que isso tivesse acontecido?

Qual tem sido a reação do público?
O livro tem sido bastante lido no Brasil e já foi publicado em Portugal. Será publicado em outros 10 países da Europa onde o fascismo também avança. Espero que o livro ajude as pessoas a freá-lo em suas reflexões e práticas de vida.

No material de divulgação do livro há uma afirmação que diz: o diálogo é uma forma de resistência. Em tempos tão confusos, ele ainda é a melhor forma?
Construir a democracia implica sustentar o diálogo. Ao mesmo tempo, não existe democracia sem diálogo. Eliminado o diálogo, elimina-se a democracia e vive versa. O autoritarismo ocupa o vazio deixado pela democracia sendo que foi ele que a expulsou da cena. Os tempos estão confusos justamente porque não investimos no diálogo, não investimos nas condições para que ele pudesse se sustentar. Essa condições implicam uma cultura da escuta e da fala responsável. Uma educação e uma política que providenciassem a formação cidadã dos sujeitos singulares.

Qual é a sua opinião sobre a televisão (mídia em geral)? Ela produz violência e alienação?
Não devemos esquecer nunca que a televisão é um meio de comunicação, assim como o jornal, a revista e até o próprio livro. mas meios de comunicação também são meios de cognição. Os meios estipulam as formas com que podem ser usados e constroem, por meio desse uso, subjetividades. Os meios nos ensinam sobre o mundo e nos forjam como sujeitos de conhecimento em relação ao mundo. Por isso, podemos dizer que a televisão é uma prótese de conhecimento, como tentei mostrar em um livro de 2011 chamado “Olho de Vidro”.

Contudo, a televisão entrega conteúdo pronto. Existem interesses na difusão dos conteúdos: entreter, vender, propagar, orientar, estimular, incitar, enganar, esclarecer, desorientar. Verdade que, no seu mais íntimo, a televisão impede o pensamento como reflexão para quem não foi orientado em outras experiências. A relação que temos com as telas é de entrega, como se fossemos hipnotizados. Como se vivêssemos em um estado de exceção da imagem, uma ditaduras das telas, a televisão nos captura e nos orienta. Mesmo assim, poderíamos fazer uma televisão para a emancipação se soubéssemos usá-la como um meio e não como um fim em si.

O que temos acima vale também para a internet que acessamos pela tela do computador e do celular. Transformada em uma segunda natureza, parece ser um ambiente natural para as pessoas. É preciso saber que não há nada de natural, que tudo isso é construído. E que estamos intimamente relacionados a essa construção que pretende devorar nossos corpos e consciências.

A impressão que fica é que as redes sociais deram voz para pessoas que nem sempre falavam suas opiniões. Essas redes virara uma espécie de palanque para o fascistas?
As redes sociais se inserem no contexto do que os filósofos chamam de ágora virtual. Ao mesmo tempo, é preciso saber que a democracia está em jogo nas redes de um modo tão interessante quanto tenso, pois não se trata de fazer democracia de qualquer jeito, de desrespeitar o seu conceito até a contradição como se vê por aí. Hoje, democracia é uma palavra que soa das bocas mais autoritárias como se valesse por simplesmente ser pronunciada. A democracia não pode cair em contradição. Ela precisa ser sustentada como a politica que fazemos uns com os outros em níveis éticos, de respeito, de responsabilidade para com as leis, a constituição, a defesa dos direitos fundamentais.

O Brasil é machista, misógino, homofóbico, transfóbico, classicista e racista. Dentre todas essas facetas, existe uma mais grave? Ou tudo está conectado?
Infelizmente o sistema dos preconceitos é auto-gerativo, um preconceito leva ao outro porque todos participam do mesmo núcleo, nascem do mesmo lugar. No núcleo de todo preconceito há a negação do outro que pode tornar-se ódio quando manipulado, quando incitado nessa direção. Sob as condições do capitalismo como sistema econômico e político as formas de preconceito se acerbam e se orientam para o capital. hoje o ódio é uma espécie de capital. O capitalismo na sua expressão atual, neoliberal e selvagem tem tudo a ver com o ódio útil que vemos hoje nas redes e no cotidiano em geral.

O livro foi lançado há alguns meses. De lá pra cá, a situação política do Brasil se tornou mais tensa. Como vê avalia o atual cenário?
O acirramento é programado. As disputas de poder se servem do afeto do ódio e a democracia que se faz atualmente pode ser apenas a fachada do autoritarismo midiático e jurídico em curso. Quero dizer com isso, faz-se as coisas mais antidemocráticas tentando fazer com que pareçam simplesmente democráticas. Sabemos, contudo, que essa é uma potência das instituições.

Muitos consideram o seu trabalho como uma “filosofia pop”. Você usaria esse termo para explicar seu trabalho?
Eu tenho um trabalho muito variado. Há teses acadêmicas, há ensaios e romances. Filosofia pop é o nome de um dos meus livros menos lidos. Mas o tema me interessa e fiz uma pesquisa acadêmica sobre seu significado que será publicada em breve em uma revista importante em nosso cenário. Se o uso da expressão relaciona-se ao temos “pop art” tal como na obra de Andy Warhol, ou no sentido que Deleuze dá a essa expressão, então não posso me considerar mais elogiada.

Você criou a #partidA. Qual era o objetivo? Existe uma vontade de transformá-lo em um partido formalizado?
#partidA é um movimento que funciona como partido e que surgiu da questão da possibilidade de um partido político feminista. Enquanto amadurecemos e construímos o nosso movimento mantemos a pergunta para nos orientar. A #partidA cresce pelo Brasil afora. É um movimento horizontal, dialógico que se propõe ao empoderamento e à protagonização de feministas para a política. É um movimento em defesa de uma democracia feminista, ou seja, uma democracia radical e que tem como objetivo a ocupação do governo. Nosso diálogo com partidos tem sido produtivo. Nossa urgência é a luta pela representação feminista nos poderes e não a configuração de um partido. Isso só o tempo dirá se é essencial. Por enquanto a reflexão e o amadurecimento da ideia é o que nos move.

Quarta (30/3), às 19h30, na Fnac ParkShopping (SAI/SO Área 6580, 1º piso; 2105-2035). Entrada franca. Classificação indicativa livre.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comEntretenimento

Você quer ficar por dentro das notícias de entretenimento mais importantes e receber notificações em tempo real?