Livro reconstitui a história do samba por meio de verbetes

Os autores Nei Lopes e Luiz Antonio Simas falam ao Metrópoles sobre “Dicionário da História Social do Samba”, no qual mostram o bê-a-bá do gênero tipicamente brasileiro

atualizado

metropoles.com

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Obra de Heitor dos Prazeres/Reprodução
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Noel Rosa já cantava: “ninguém aprende samba no colégio”. Infelizmente. Apesar de ser tipicamente brasileiro, o gênero tem parca bibliografia e ainda não ganhou o devido reconhecimento. Remando contra à maré, chega às livrarias “Dicionário da História Social do Samba” (Grupo Editorial Record, 336 págs, R$ 55), livro de Nei Lopes e Luiz Antonio Simas que promete ser uma referência na literatura musical.

Os autores “desvendam” o samba a partir de vários verbetes . “Abre-alas”, por exemplo, é o elemento que vem à frente da agremiação, durante o desfile carnavalesco. Já a “Cidade do Samba” é o local onde concentram-se os barracões, espaço em que nascem os carros alegóricos e as fantasias. Menos conhecido, o vocábulo “corta-jaca” remete a uma coreografia do samba de roda.

“Dicionário da História Social do Samba” é um livro leve e denso ao mesmo tempo. De leitura fluída, a publicação é o resultado de uma pesquisa profunda, que vai além das questões musicais. Ao escolher um dicionário para explicar o samba – de A a Z -, Lopes e Simas também nos dão a chance de conhecer melhor a trajetória política, econômica e social do Brasil

Confira a entrevista com os autores:

Metrópoles: Como nasceu a ideia de fazer um dicionário social do samba?
Luiz Antonio Simas: A ideia foi do Nei, que vem acumulando vivência, saber e material sobre tudo que envolve o samba. Ao receber o convite dele para dividir o trabalho, entrei feliz da vida no barco e acho que chegamos a um bom porto.

M: Como funcionou a pesquisa para o livro?
Nei Lopes: Não houve pesquisa e, sim, consultas pontuais às fontes e ao que eu já havia produzido. E à memória também, claro, pelo muito que eu já vivi dentro do mundo do samba. Então, o livro partiu de uma espécie de compilação, em verbetes, do muito que já escrevi sobre o tema, em livros e artigos, como por exemplo: “O Samba, na realidade…” (Ed. Codecri, 1981); “O negro no Rio de Janeiro e sua tradição musical” (Pallas, 1992); “Sambeabá, o samba que não se aprende na escola” (Casa da Palavra/Folha Seca, 2003); e “Partido-alto, samba de bamba” (Pallas, 2005). Pela necessidade de uma outra voz, chamei o amigo Simas, que trouxe o que faltava.

M: Imagino que muitos verbetes ficaram de fora. Existe a possibilidade de um volume 2?
NL: Havendo necessidade e possibilidade de nova edição, claro que muita coisa certamente vai entrar. Principalmente, para atualizar o conteúdo e reparar algumas falhas acaso percebida

M: Nei Lopes é um dos principais escritores da cultura afro-brasileira. Como foi escrever o projeto com ele?
LS: Foi uma honra. Nei é, mais do que parceiro e amigo, uma referência intelectual para mim. Como o considero o intelectual público mais importante do Brasil e o nosso mais potente pensador e pesquisador das culturas da diáspora africana nas Américas, o trabalho acabou sendo um aprendizado e me obrigou a um exercício de sistematização fundamental para a produção do conhecimento.

M: A maioria das suas publicações foi escrita só por você. Como foi dividir esse livro com Simas?
NL: O Simas é um profundo conhecedor do universo do samba, além de ser um professor universitário e um intelectual do mundo acadêmico. Sua parceria foi muito prazerosa e tranqüila, pois não tivemos nenhuma discordância (por incrível que possa parecer). Isso dá um respaldo muito grande ao trabalho, porque em várias ocasiões eu, apenas bacharel em Direito, já tive meus escritos desqualificados. O Simas veio, além de tudo, me dar esta “força”.

M: Logo no início do livro, há uma citação que diz: “o samba não tem o respeito que merece no exterior”. Hoje, o gênero tem o respeito e o reconhecimento no Brasil?
LS: O que eu entendo como samba não tem. No samba vivem saberes que circulam: formas de apropriação do mundo, construção de identidades comunitárias, hábitos cotidianos, jeitos de comer, beber, vestir, enterrar os mortos, celebrar os deuses e louvar os ancestrais. Cultura, enfim. Há, todavia, quem se aproprie do samba para submeter sua complexidade aos limites da indústria cultural (incluídos aí os meios de difusão de massa e o carnaval, cada vez mais reduzido ao mero entreterimento). Ando cada vez mais convencido da necessidade de se descarnavalizar o samba para que ele seja respeitado em toda a sua complexidade e potência.

A história do samba e da religiosidade afro-brasileira caminham lado a lado. Atualmente, o qual dessas manifestações está mais descaracterizada. Por que?
LS:  Estou longe de ser um essencialista e acho que complexos culturais são potentes porque são dinâmicos. Me parece, todavia, que o samba sofreu algo até pior do que uma descaracterização: ele foi sistematicamente minado em seus fundamentos simbólicos mais importantes. O carnaval das escolas de samba, por exemplo, deixou de ser um poderoso evento da cultura e foi tragado pela lógica da cultura do evento, que espetaculariza e esvazia tudo. As religiosidades afro-brasileiras enfrentam hoje um problema que me parece até mais urgente que eventuais descaracterizações, oriundas sobretudo de uma exploração mercantil do orixá: o avanço brutal de comunidades neopentecostais (o Dicionário fala sobre isso) que, na disputa pelo mercado da fé, demonizam e minam os saberes que fundamentam essas religiosidades. Basta ver a dificuldade que algumas escolas de samba têm hoje para conseguir um número suficiente de alas das baianas para seus desfiles. Além das fantasias pesadas, a pregação de pastores que vinculam o samba e a indumentáriadas baianas ao maligno, em um discurso de recorte racista, produzem considerável devastação nas fileiras desse que já foi o setor mais nobre de uma agremiação.

Civilização Brasileira/Reprodução

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