Livro de Ferreira Gullar escrito durante exílio é relançado

Dentro da Noite Veloz, originalmente publicado em 1975, reforça compromisso do artista de lutar contra injustiças sociais e a opressão

atualizado 16/11/2018 11:42

Divulgação

Quando morreu, em dezembro de 2016, aos 86 anos, o poeta Ferreira Gullar deixou uma obra monumental. Só livros de poesias, seu campo de atuação por excelência, foram 17, publicados ao longo de 65 anos de carreira. Um deles, Dentro da Noite Veloz, acaba de ser reeditado pela Companhia das Letras. Antes, a editora já havia republicado em 2016 Poema Sujo (1976) – sua obra mais famosa – e, em 2017, A Luta Corporal (1954) e Na Vertigem do Dia (1980).

Lançado em 1975, durante o exílio, a obra é um retrato contundente, mesmo ele estando à distância, daquele Brasil sufocado pelas garras do regime militar. É um livro que revela muito do país naquele momento. “Ferreira Gullar é uma fera. Que se entenda bem: fera no sentido aguerrido, que tanto na vida quanto na literatura sempre falou e escreveu com determinação e coragem”, assinala no prefácio desta reedição o poeta carioca Armando Freitas Filho.

E é verdade. Pode-se dizer que a obra foi um marco na carreira do poeta maranhense, então radicado no Rio de Janeiro desde os seus 21 anos de idade. Era um atestado de maturidade de quem fazia política usando a força e beleza de lirismo visceral e engajado. “Todas as coisas de que falo são de carne / Como o verão e o salário”, escreveu em Coisas da Terra.

São 41 poemas escritos entre 1962 e 1975 com o compromisso moral de lutar contra as injustiças sociais e a opressão. Pacto que o poeta firmou a partir de 1962, ou seja, um ano após deixar, em Brasília, a primeira cadeira da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, dois anos antes do golpe de estado que relegou o Brasil a 21 anos de escuridão. Grande parte das poesias foi escrita durante seu exílio no Chile, Peru e na Argentina, onde ficou até 1977.

Companhia das Letras/DivulgaçãoSão versos questionadores que denunciam a brutal realidade social e política brasileira na época. As greves sufocadas nas ruas, as torturas nos porões da ditadura, a angústia e a tristeza do exílio forçado, a falta de liberdade no dia a dia e o preço gritante do pão, como escancara naquele que é um de seus mais famosos versos: “Dois e Dois: Quatro”. “Como dois e dois são quatro / Sei que a vida vale a pena / Embora o pão seja caro / E a liberdade pequena”, desabafa.

Ode a Che Guevara
Numa época em que os homens de fardas censuravam temas polêmicos como miséria e fome, Poema Brasileiro, curiosamente inspirado por uma notícia de jornal, criticava, com coragem, o absurdo da mortalidade infantil no Piauí, onde quase 80% das crianças que nasciam não completavam os 8 anos de idade. Em Não Há Vagas, ironiza a confusão da política econômica brasileira. E em Homem Comum, humaniza e se solidariza com os “Josés” das ruas, o povo.

Forçado ao exílio, em 1971, Ferreira Gullar, assim como tantos outros que tiveram o mesmo destino, sentiu na pele a saudade da casa, dos amigos e familiares, das “praias e montanhas lilases” do Rio de Janeiro, assim como a amargura das decepções e derrotas num mundo polarizado entre esquerda e direita. Sozinho, devastado e ferido em seu retiro involuntário, por onde passou, foi batendo sua Lettera 22 e criando versos de amor e esperança.

“Sua voz quando ele canta / Me lembra um pássaro mas / Não um pássaro cantando: / Lembra um pássaro voando”, escreve em uma voz, talvez evocando a liberdade.

Feito em homenagem ao guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara, morto em outubro de 1967, nas matas bolivianas, o longo poema que dá título à obra é uma ode não apenas à figura mítica do revolucionário com ares de santo, mas a todos aqueles que um dia acreditaram na perigosa aventura existencial da vida.

“Súbito vimos ao mundo / E nos chamamos Ernesto / Súbito vimos ao mundo / E estamos / Na América Latina / Mas a vida onde está? / Nos perguntamos / Nas tavernas / Nas eternas / Tardes tardas?  / Nas favelas / Onde a história fede à merda? / No cinema?”, radicaliza.

Dentro da Noite Veloz, de Ferreira Gullar
Companhia das Letras, 120 páginas, R$ 44,90

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