Livro de autor de Brasília propõe homenagem ousada a Machado de Assis

O Homem que Odiava Machado de Assis, de José Almeida Júnior, aproveita brecha na biografia do autor para refletir sobre Brasil do século 19

JP Rodrigues/MetrópolesJP Rodrigues/Metrópoles

atualizado 16/06/2019 7:05

O Homem que Odiava Machado de Assis (Faro Editorial), novo livro de José Almeida Júnior, homenageia o mais popular e renomado escritor brasileiro de forma incomum e ousada. A começar pelo título. Quem seria esse sujeito que tinha o genial autor como desafeto? É tudo ficção, mas autêntico o suficiente para parecer um capítulo proscrito da história.

Potiguar radicado em Brasília e premiado já por seu primeiro trabalho, Última Hora, obra indicada ao Jabuti, ao São Paulo de Literatura e vencedora do Sesc, o jovem defensor público, de 36 anos, usou uma brecha na biografia de Assis e de sua esposa, Carolina Augusta, para mergulhar no século 19 por meio do personagem (inventado) Pedro Junqueira, aristocrata disposto a manchar o legado de seu rival. Júnior lança o livro nesta terça (18/06/2019), na Livraria Cultura do shopping CasaPark.

“Me transportei através do Pedro para o século 19”, aponta Almeida Júnior. “Comecei com a intenção de escrever um livro como se Dom Casmurro fosse autobiográfico. Depois que terminei, minha agente literária disse que ele era muito parecido com Brás Cubas. Vivia de renda, era mesquinho. Queria ser ministro e deputado mas não foi. O próprio Machado falava muito dessa aristocracia do Rio de Janeiro, da corte. Acho que fiz um livro bem machadiano”, explica.

Faro Editorial/DivulgaçãoO ponto de partida de Almeida Júnior foram as memórias escritas pelo músico português Artur Napoleão. Ele veio ao Brasil com Carolina, que viria a conhecer Assis e se casar com o escritor. Em seus escritos, Napoleão envolve em mistério a vinda da jovem ao país. Assis, por sinal, mandou queimar a correspondência trocada entre sua esposa e o músico. Numa das duas cartas que sobreviveram às chamas, o lusitano dá pistas sobre o passado da conterrânea: ela teria sofrido à beça na terra natal.

Que tal partir daí para fabular sobre uma possível desilusão amorosa de Carolina em Porto? O pivô dessa tristeza é Pedro Junqueira, ninguém mais, ninguém menos do que um sujeito que viveu parte da infância com o mestiço Joaquim Maria Machado de Assis em Morro do Livramento, no Rio. Cresceram como rivais – um pobre, outro rico. Alimentaram rusgas desde cedo – Junqueira invejava os talentos autodidatas do garoto. Não à toa, o livro abre com o enterro de Assis e a promessa do protagonista em destruir a boa fama do escritor por meio de suas memórias.

“Depositei no mausoléu uma flor e fiz uma oração. O gesto não foi em memória de Machado de Assis, mas de Carolina, por quem eu nutria profundo amor e respeito. O escritor ateu não merecia que eu gastasse com ele o pouco de fé que eu possuía. Ele que se virasse para explicar ao Altíssimo todas as maldades que causara a mim e a sua esposa. Dificilmente escaparia no Juízo Final, pois, além de tudo, tinha recusado a extrema-unção do padre nos momentos anteriores a sua morte”, narra um trecho de O Homem que Odiava Machado de Assis

O Machado de Assis real

Bastante engajado nas redes sociais, com canal no YouTube dedicado a detalhar seus livros, dar pitacos acerca da política e comentar outras obras, Almeida Júnior filiou seu novo livro ao movimento #MachadodeAssisReal, uma iniciativa que busca corrigir uma injustiça histórica. Negro, o escritor foi repetidamente retratado oficialmente no Brasil como um homem branco. Tudo em nome de uma suposta “democracia racial” num país onde o racismo é um problema social perene.

“Machado sofreu muito preconceito pela questão racial”, lembra o autor potiguar. Não só na carreira, mas também na vida privada. “Miguel, irmão de Carolina, não queria que ela se casasse com ele porque era negro. Há relatos de que ele sofreu discriminação dentro da repartição pública. Sílvio Romero, um dos principais críticos da época, colocava expressamente a questão racial em seus textos”, analisa.

Após um período de esquecimento na opinião pública, recorda Almeida Júnior, Assis teve seu nome recuperado durante o Estado Novo. “Antes, ele havia sido muito criticado pelos modernistas. Depois, foi objeto de exposição no Rio. Oscar Niemeyer foi um dos organizadores. Foi feito um trabalho em escolas públicas calcado nessa questão da democracia racial. O preconceito foi deixado de lado. Meu personagem, Pedro, é muito claro nisso. Ele sente muita inveja pois Machado é mestiço, um ‘agregado’. Ele tinha tudo para se dar bem e nada dá certo”, analisa.

O Homem que Odiava Machado de Assis, de José Almeida Júnior (Faro Editorial, 240 páginas)
Terça (18/06/2019), às 19h, na Livraria Cultura do shopping CasaPark (Guará). Preço: R$ 39,90. Informações sobre o lançamento no Facebook. Classificação indicativa livre

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