Nelson Rodrigues reduzia a obra de João Guimarães Rosa a uma imagem cruel. Dizia que, ao escrever, o escritor mineiro empilhava pirâmides de biscoitos. A pilhéria nasceu a partir da frase, “faça pirâmides, não faça biscoitos”, do próprio autor do revolucionário Grande Sertão: Veredas, que acaba de sair em nova reedição de luxo pela Cia das Letras, ao preço de R$ 89,90.

“É a realização de uma vida”, admitiu Luiz Schwarcz, dono da Cia das Letras, numa nota publicada na página da editora. “Depois de Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, é a melhor síntese mítico-romanesca para se entender o Brasil profundo, o interior e sua diversidade socioambiental e histórico-cultural”, atesta o acadêmico brasiliense Xiko Mendes.

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Guimarães Rosa em suas andanças pelo sertão brasileiro

 

Professor de história da Secretaria de Educação do GDF, com mestrado pela UnB, e um entusiasta do universo marcante e original de Guimarães Rosa e seus personagens rudes, brutos, primitivos, Mendes, em entrevista ao Metrópoles, defende o romance como uma crítica “do projeto de futuro que construímos nos últimos 60 anos”.

“No mesmo ano em que Brasília estava no início de sua construção, forjada num discurso político de modernização do desenvolvimento, Guimarães Rosa faz o contrário: constrói uma narrativa inspirada no imaginário do sertão, não o dos Bandeirantes mitificados pela marcha para o Oeste (materializada com a edificação de Goiânia), mas um interior brasílico com suas raízes coloniais fincadas no bioma Cerrado, seus saberes e fazeres tradicionais”, observa Mendes.

A nova edição do livro – publicado originalmente em 1956 –, segundo os realizadores do projeto, tem a pretensão de reacender o interesse das atuais e futuras gerações de leitores. Além de projeto gráfico que reproduz um manto do artista plástico Arthur Bispo do Rosário (1909 – 1989), onde foram bordados no avesso de um tecido os nomes dos personagens da trama, a obra preserva os desenhos originais da 1ª versão assinados por Poty Lazzarotto.

Outros atrativos são as reproduções de célebres textos publicados sobre o romance, incluindo um breve recorte de missivas trocadas entre Clarice Lispector e Fernando Sabino, além de ensaios de especialistas na obra de Guimarães Rosa, como os acadêmicos Walnice Nogueira Galvão e Benedito Nunes, este último já falecido. Futuramente, a Cia das Letras pretende fazer uma adaptação da obra para o graphic novel.

Obra difícil, mas essencial…
Clássico da literatura brasileira, Grande Sertão: Veredas não é uma obra fácil de ler, exige certa dose de resiliência, mas é essencial aos amantes da palavra. Sobretudo pela inovação no manejo da linguagem, elaborada numa narrativa inventiva tangenciada por “neologismos, aforismos, arcaísmos, onomatopeias e aliterações”. Elementos que o levam a ser comparado ao irlandês James Joyce, autor de obras como Ulisses (1922) e Finnegans Wake (1939).

Escrito originalmente como parte de uma das novelas do livro Corpo de Baile (1956), o clássico romance ganhou vida própria ao contar as aventuras pelo sertão de Minas Gerais, parte do interior da Bahia e Goiás, do ex-jagunço Riobaldo. Num cenário quase medieval, onde reina a injustiça, relatos de lutas entre sertanejos e ricos fazendeiros se fundem com tramas de amor e pactos satânicos, numa releitura bem original do mito de Fausto, do alemão Goëthe.

“Tem um fundo telúrico, real, mas aí passasse uma história com transcendência, visando, até, ao metafísico, seria quase uma espécie de um Fausto sertanejo”, resumiu Guimarães Rosa numa entrevista rara dada para a televisão alemã, em 1962.

Para dar vida aos personagens e ao universo árido que os cerca, Guimarães Rosa se fez valer de suas experiências empíricas por regiões do país para as quais viajava na condição de médico. Era comum ele chegar de suas longas jornadas pelo sertão com o embornal abarrotado de pudim, bolo, ovos e outros presentes dado pelos pacientes, sem dinheiro para lhe pagar pelas consultas.

Mas Guimarães Rosa trazia na matula pesada muito mais do que comida e poeira da estrada, também os relatos de vaqueiros e da gente simples do agreste mineiro. Um mundo que, narrado por um homem inculto, matuto, mas dotado de grande imaginação e poesia, tece tramas de amor, alegria, ambição, insatisfação, solidão, dor, medo e… morte.

“O interesse pela obra de Guimarães Rosa é resultante do estranhamento que temos hoje com aquilo que Grande Sertão: Veredas traz de diferente. Rosa nos leva ao ‘reecantamento’ mágico com o sertão, não o do Cerrado envenenado pelo agronegócio, mas o de um bioma cuja fauna, flora e gente se convergiram para a formação de uma identidade regional singular no contexto da diversidade cultural e socioambiental do Brasil”, destaca Xiko Mendes.

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João Guimarães Rosa. Cia das Letras, 552 páginas, R$ 89, 90

 

Além das histórias que ia colecionado pelas trilhas do mato seco, o escritor mineiro baseava sua narrativa também nas lendas contadas pelo pai Florduardo, quando este voltava de longas caçadas, deserto adentro. Enfim, uma miscelânea de fontes que ajudou Guimarães Rosa a não só criar uma “nova língua”, “fundar um idioma” dentro da literatura brasileira, mas um universo único.

Médico que se sentia culpado quando um paciente morria, Guimarães Rosa não demorou muito para largar a profissão e abraçar a carreira de diplomata, após passar num concurso do Itamaraty. “Não tinha vocação. Quase desmaiava ao ver sangue”, entregou certa vez, Agnes, uma de suas filhas. Três dias após assumir a cadeira de Nº 2, da Academia Brasileira de Letras, foi vítima de um ataque cardíaco fulminante, no auge da carreira diplomática e literária.

“As pessoas não morrem, ficam encantadas”, dizia ele, numa visão lírica que permeou sua obra sui generis.