Museu dos Correios exibe 120 obras de Debret
Passados dois séculos, a vocação cronista do francês faz com que seus desenhos e aquarelas ganhem interesse etnográfico e antropológico
atualizado
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Destino tropical frequente para intrépidos artistas franceses desde a aventura colonizadora chamada França Antártica (1555-1560), o Brasil já era mais português do que nunca quando aqui chegou Jean-Baptiste Debret (1768-1848).
Tocado da Europa pelas tropas inquietas de Napoleão Bonaparte, o Imperador D. João VI desembarcou na cidade do Rio de Janeiro em 1808. Pelos anos seguintes, a chegada de artistas europeus seria intensa. Notadamente, os franceses. Entre eles, Debret, que cá viveria por 15 anos e registraria em desenhos e aquarelas o início da formação da identidade urbana brasileira.

E agora, por conta do aniversário de 450 anos do Rio de Janeiro, festejado em janeiro último, chega ao Museu Nacional dos Correios um acervo de 120 obras de Debret. Pertencentes à Coleção Castro Maya, as peças da mostra “O Rio de Janeiro de Debret” aqui se espalham por dois pisos da instituição.
Como gravitava em torno da corte, Debret registrou hábitos palacianos e eventos caros a seus anfitriões. Mas o olhar mais apurado ele parecia guardar para as ruas, as praças. Passados largos dois séculos, a vocação cronista do francês, de repente imerso naquela sociedade escravocrata e ainda em formação, faz com que seus desenhos e suas aquarelas ganhem outro tipo de interesse, que passa pela etnografia, pela antropologia.
Cenas cotidianas
Claro, o apuro técnico está todo lá. Debret dominava seu ofício. Mas está patente que ele passa longe do drama histórico e da sensação de transcendência que seu mestre Jacques-Louis David, o pintor iluminista por excelência, conseguia imprimir nas telas. Debret funciona em outra ordem.
Com a precisão do traço, Debret chegava a copiar em desenhos a arquitetura do casario carioca, e tinha a perspectiva exata para panorâmicas, como o desenho do Rio de Janeiro visto da entrada da Baía da Guanabara. Essa grandiosidade da cidade e da natureza surge, nesta mostra, pontuada por cenas cotidianas. Barbeiros trabalhando a céu aberto, escravos sendo punidos em praça pública, uma bandinha tocando no meio da rua. Cenas como essas respondem pela maioria das peças aqui em exibição e garantem o interesse da visita.
Até 25 de outubro, no Museu Nacional dos Correios (Setor Comercial Sul, Quadra 4, Lote 256, 3213-5076). De terça a sexta, das 10h às 19h. Sábados, domingos e feriados, das 12h às 18h. Entrada franca. Livre.
