“Cru”: no desvão entre o cotidiano e o inusitado

Coletiva de arte contemporânea do CCBB busca ampliar percepções sobre comida e sustentabilidade

atualizado

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Usos e costumes. Por vezes, faz parte da arte contemporânea embaralhar ideias, confundir suportes e provocar o senhor visitante para melhor provar um ponto. A chamada arte conceitual, assim, lança luz sobre intenções tanto quanto realizações. E, não raro, o pensamento que antecede o gesto passa a ser tão valorizado quanto a própria peça de arte, o tal produto final.

A armadilha: aquilo que corre museus e galerias, alimentando as engrenagens das artes visuais, garantindo cachês para artistas e curadores, aquilo que atrai visitantes, ficando para a posteridade, ainda é o tal produto final. Ainda é a peça de arte em si.

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Obra da americana Dana Sherwood que compõe a mostra “Cru”, em cartaz no CCBB

Essa armadilha precisa ser eventualmente desarmada durante a visitação da mostra “Cru”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Trata-se de um exercício coletivo de arte conceitual que reuniu autores de diferentes nacionalidades, formações e práticas artísticas.

Sob curadoria de Marcello Dantas, as obras aqui são amarradas pelo tema genérico comida. E o clima geral da mostra, as peças escolhidas e a própria montagem da exposição fazem lembrar a última coletiva de arte contemporânea internacional a passar pelo CCBB, “Ciclo”, que ali ficou entre março e abril deste ano.

“Ciclo” girava em torno de materiais industriais. Daquela vez, como desta, o conceito tão amplo acaba sendo alimentado por um subtema politicamente correto: a sustentabilidade.

Então, daquela feita, a americana Tara Donovan apresentou uma instalação formada por centenas de milhares de copos de plástico, ocupando uma sala inteira, criando uma paisagem que remetia a um mar cheio de ondas. Assim, o lixo industrial era reinventado e praticamente redimido pela arte.

Rio de batatinhas chips
Para “Cru”, o alemão Thomas Rentmeister tomou um recôndito da galeria do CCBB e lá deitou um rio formado por 900 quilos de batatinhas chips. Sim, as batatinhas fritas industrializadas que ocupam o zênite da junkie food. Rentmeister tenta redimi-las, segundo o texto de apoio, ao lembrar que esses hoje amaldiçoados salgadinhos já salvaram da fome muitos de seus conterrâneos durante períodos de privação.

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Criação de Damián Ortega

É tudo uma questão de perspectiva. E os melhores momentos de “Cru” também trabalham nesse desvão entre o cotidiano e o inusitado.

Logo na entrada da galeria principal do CCBB, o visitante é recebido por um carrinho cheio de alimentos embutidos e outros produtos alimentícios produzidos em série. Mas não se deve comê-los. Estão ali apenas para informar que a americana Dana Sherwood largou um carrinho assim no meio de uma mata, nas cercanias de Brasília, durante uma noite inteira. Quatro vídeos, em loop, dão conta dos passantes noturnos que dele se cercaram naquela ocasião: lobos, jaguatiricas, morcegos, pássaros.

Ao lado do carrinho, um outro vídeo, projetado na parede, mostra abutres se divertindo a valer em cima de um banquete a céu aberto. Greta Alfaro, a espanhola responsável pela refeição, colocou a comida sobre a mesa, ligou a câmera e esperou para ver o que acontecia. Foi um espetáculo.

Até 12 de outubro, no Centro Cultural Banco do Brasil (Setor de Clubes Esportivos Sul, Trecho 2, lote 22, 3108-7600. De quarta a segunda, das 9h às 21h. Entrada franca. Livre.

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