Colecionador transforma apartamento no Sudoeste em verdadeiro museu de arte
Amador Outerelo reúne peças que começam no período colonial, passeiam pelo romantismo europeu e terminam com os academicistas brasileiros. Acervo é exibido mensalmente a grupos de convidados
atualizado
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Desde 2013, um grupo diferente de até 10 pessoas é convidado mensalmente para um jantar no apartamento do colecionador de artes Amador Outerelo, no Sudoeste. Ainda que a comida seja elaborada com finos ingredientes, o ponto alto do encontro é o que vem depois da sobremesa. O anfitrião leva os convidados para um tour pelos 500 metros quadrados da residência, repleta de obras de arte.
Para mim, a arte é a tentativa de deixar na história aquilo que é mais belo. A vida é passageira, enquanto a arte é eterna. Eu a possuo nesse instante, mas sei que ela vai permanecer para sempre
Amador Outerelo
Grande parte do acervo é de peças do estilo barroco. São mobiliários portugueses, muitos feitos em madeira de lei como jacarandá, e esculturas sacras que denotam a religiosidade do país no período colonial. O destaque fica para o pedaço de retábulo feito pelo Mestre Valentim, um dos principais artistas do estilo. A peça foi retirada de uma igreja do interior do Rio de Janeiro, demolida posteriormente, restaurada e emoldurada. Hoje, ocupa lugar central na sala de estar de Outerelo.
Escolha criteriosa
A seleção é criteriosa. As obras foram obtidas em leilões, antiquários e vendas privadas – na qual o colecionador é escolhido pelo até então proprietário do objeto para fazer a compra. “Sempre levo em consideração que meu espaço é limitado. Então, tenho que escolher bem, pois não gosto de deixar nada fora da vista”, explica o colecionador.
Porém, antes da compra, ele diz, há um longo processo de estudo e checagem. “Busco livros de arte e faço pesquisas na internet para identificar os estilos das obras e compreender sua importância. É algo necessário para quem vive de arte”, afirma. Não à toa, boa parte de sua biblioteca é dedicada a estudos sobre obras de artes nacionais e mundiais.
Mesmo assim, muitas das peças da casa não têm títulos definidos nem o nome de seus autores identificados. “Infelizmente, muitas vezes as peças são leiloadas com pouquíssimas informações. As peças do barroco, principalmente, não contêm quase nenhum dado específico”, explica. O importante, para o colecionador, é que a obra preserve sua estética e – de alguma forma – toque diretamente aqueles que a observam.
Uma volta pela casa
O acervo, porém, não se prende à sala de estar. Na verdade, todo o apartamento de Outerelo é uma verdadeira imersão no mundo das artes. No escritório, diversos quadros de pintores europeus cobrem as paredes e a escrivaninha parece ter saído do século 19. A sala de jantar possui uma mesa para 12 pessoas feita em estilo Dom João V. A louça da casa é uma atração a parte: um dos conjuntos fazia parte do serviço de caça do imperador Dom Pedro I.
Os quartos parecem ter pertencido a palácios barrocos no passado. No de hóspedes, cama, mesas de cabeceira, penteadeira e espelhos fazem parte de um único conjunto rococó – arabescos, anjos e flores embelezam o antigo mobiliário. Já no quarto do colecionador, o conjunto barroco se mostra bem preservado e chama a atenção.
Porém, o destaque fica para os objetos ornamentais que se encontram distribuídos no espaço. Pequenas estátuas do século 18 feitas em marfim na China (hoje a produção destas obras é proibida) e o ícone russo (quadro religioso feito com ouro) são algumas das raridades que encontramos no cômodo.
Academicistas brasileiros e românticos europeus
Já o segundo andar do apartamento conta com uma sala e uma área externa com piscina. Os quadros pintados por academicistas brasileiros, como Eliseu Visconti e Timotheo da Costa, dividem espaço com telas feitas por artistas neoclássicos e românticos europeus. Pequenas esculturas são postas juntas em cima do piano, mesmo que de diferentes estilos. É o caso do conjunto escultórico criado para celebrar o casamento de dois príncipes alemães no século 18.
Também salta aos olhos o vaso Tiffany de prata e cristal lapidado feito em 1907. Próximo a todas essas antiguidades, um quadro pintado pelo modernista Enrico Bianco destoa do local. Na área externa estão duas esculturas em porcelana branca de Santo Antônio do Porto, que representam divindades romanas. Anteriormente, elas eram usadas para adornar o telhado de casas da elite portuguesa.
Após o passeio, o visitante fica com a impressão de que tudo parece estar no lugar certo da casa, como se o dono passasse horas avaliando o canto exato em que a obra deve permanecer. De fato, é esse um dos hobbies preferidos do colecionador. “Para mim, tudo tem que estar harmônico. Algumas vezes entro na casa de outras pessoas e vejo obras lindas mas que parecem berrar na cara do visitante. Não dá, né?”, brinca.
Conheça alguns dos cômodos:































