Carnaval do DF vira disputa de edital e blocos históricos ficam fora

Excluídos do DF Folia 2026, blocos tradicionais apontam falta de transparência e dizem que burocracia afasta a festa da rua

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Matheus Veloso/Metrópoles @mvelosofoto
divinas-tetas
1 de 1 divinas-tetas - Foto: Matheus Veloso/Metrópoles @mvelosofoto

A divulgação do resultado definitivo dos blocos habilitados para o Carnaval do Distrito Federal em 2026 reacendeu um debate antigo na cena carnavalesca local. De um lado, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF defende um modelo competitivo, baseado em critérios técnicos e pontuação objetiva. Do outro, blocos tradicionais e periféricos que ficaram de fora questionam a transparência do processo e o impacto da burocracia sobre uma festa historicamente construída na rua.

Blocos tradicionais, como Menino de Ceilândia, Suvaquinho da Asa, Tesourinha e Divinas Tetas, não irão sair no Folia DF 2026 e reclamam da falta de transparência nos critérios adotados pelo edital do governo.

O Bloco Menino de Ceilândia participa dos editais da cultura há décadas e nunca havia sido desclassificado. Segundo o coordenador Ailton Velez, a notícia chegou de forma seca, por meio da publicação oficial do resultado. “Foi essa divulgação que a gente recebeu, com muito desalento”, afirmou.

Ailton destaca que a exclusão ocorreu por uma diferença mínima de pontuação, de apenas 0,2 ponto, e critica a falta de clareza na avaliação técnica. Ele relata que a ficha devolvida pela secretaria aponta itens como “insuficientes” mas sem detalhar o motivo da perda de nota. “Eles dizem que foi insuficiente, mas não explicam o que estava errado. Assim fica impossível entender onde a pontuação caiu”, disse.

O bloco entrou com recurso, mas não obteve retorno efetivo. Ailton afirma que nenhum recurso apresentado pelos blocos não classificados alterou o resultado final. “Não teve resposta, não teve justificativa. A impressão que fica é que nem olharam os recursos”, declarou. Segundo ele, a etapa recursal, que seria a última instância de diálogo, termina sem explicações públicas.

O impacto da exclusão vai além da programação do Carnaval. Ailton avalia que a decisão frustra trabalhadores da cultura e o público da Ceilândia, que já esperava o desfile. Ele também critica o que chama de valorização de uma cultura mais globalizada em detrimento de manifestações tradicionais. “Frevo, samba, maracatu e outros ritmos brasileiros acabam ficando em segundo plano”, afirmou.

Situação semelhante foi vivida pelo Suvaquinho da Asa, bloco infantil ligado ao tradicional Suvaco da Asa e com mais de uma década de atuação. O presidente Pablo Feitosa diz que a reação inicial foi de incredulidade. “Vimos passar blocos que são festivais privados e outros que surgiram de uma hora para outra, enquanto blocos com 10, 20 e 30 anos ficaram de fora”, disse.

Segundo Pablo, desde a adoção do modelo de editais, o Suvaquinho sempre foi contemplado por cumprir critérios como tempo de existência, matriz carnavalesca e acessibilidade. Em 2026, embora utilizando o mesmo edital do ano anterior, a pontuação caiu sem explicação clara. “Trabalhamos com o frevo, patrimônio imaterial da humanidade e com acessibilidade desde a criação. Não sabemos onde perdemos pontos”, afirmou.

Carnaval do DF vira disputa de edital e blocos históricos ficam fora - destaque galeria
4 imagens
Suvaquinho da Asa
Tradicional bloco "Divinas Tetas" agita multidão
Tradicional bloco "Divinas Tetas" agita multidão
Bloco Menino de Ceilândia
1 de 4

Bloco Menino de Ceilândia

Reprodução/Instagram
Suvaquinho da Asa
2 de 4

Suvaquinho da Asa

Reprodução/Agência Brasília
Tradicional bloco "Divinas Tetas" agita multidão
3 de 4

Tradicional bloco "Divinas Tetas" agita multidão

Fotos: Matheus Veloso/Metrópoles @mvelosofoto
Tradicional bloco "Divinas Tetas" agita multidão
4 de 4

Tradicional bloco "Divinas Tetas" agita multidão

Matheus Veloso/Metrópoles @mvelosofoto

Resistência

Apesar de não receberem o apoio financeiro do governo do Distrito Federal, alguns blocos vão sair, mas com estrutura reduzida.

O presidente do Suvaquinho conta que o bloco vai sair no dia 7 de fevereiro, às 10 horas, no estacionamento entre a Funarte e Torre de TV, mas relata o cancelamento de oficinas, brinquedos, atividades artísticas e atrações voltadas às crianças, todas gratuitas. “Não conseguimos entregar o conforto, a segurança e a parte artística que sempre fizeram parte do bloco”, disse.

O Menino de Ceilândia também vai sair no dia 15, mas com um trajeto menor e sem grande estrutura: “A gente vai fazer um pequeno trajeto, sem estrutura, sem banheiro químico, sem tenda, sem proteção nenhuma. Será um percurso curto pelas ruas de Ceilândia, só para registrar a nossa passagem no Carnaval de 2026, diante dessa decisão da Secretaria de nos deixar fora da classificação, apesar de todo o trabalho que a gente vem realizando há muito tempo”.

Divinas Tetas fora da Folia

A crítica à burocratização do Carnaval também apareceu na decisão do Bloco das Divinas Tetas de não desfilar em 2026. Em nota, o coletivo anunciou um “carnaval sabático” e classificou a pausa como um gesto político.

O texto aponta um modelo de política cultural considerado “burocrático, opaco e distante do diálogo com os blocos”, além de contrário aos princípios que moldaram o Carnaval de rua do DF.

“Acreditamos que o carnaval deve ser organizado de acordo com a vontade coletiva de ocupar as ruas com alegria, música, arte e liberdade.  É assim que a gente pretende seguir: com coerência, transparência, respeito e carinho à nossa trajetória e também à história do Carnaval do DF”, diz o bloco.

O outro lado

Do lado do governo, o secretário de Cultura do DF, Claudio Abrantes, afirma que os critérios do edital são objetivos e conhecidos previamente. Segundo ele, itens como proposta artística, data, horário e organização pesam diretamente na pontuação. “Não existe vaga cativa. Trata-se de uma competição”, declarou.

Abrantes reconhece que blocos consolidados ficaram de fora, mas destaca que o recurso é limitado e que o número de vagas e o valor do incentivo vêm crescendo desde 2023.

Para o secretário, a disputa é saudável e reflete o surgimento de novos blocos já bem estruturados. Ele também afirma que não há mecanismos de proteção para blocos tradicionais. “A competição pública não pode ter reserva de mercado”, disse.

O secretário também deixa claro que apesar de fora da contemplação do edital, incentiva que os blocos saiam às ruas.

“É uma forma de melhorar o portfólio. Isso movimenta o Carnaval, aumenta a oferta para a população, além de fomentar a economia criativa e empregos diretos e indiretos”, completa.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comEntretenimento

Você quer ficar por dentro das notícias de entretenimento mais importantes e receber notificações em tempo real?