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Cultura

Cannes: Victorian Psycho, de Zachary Wigon

O nome é inspirado num clássico, já o filme é uma obra que se garante sozinha.

21/05/2026 22:48, atualizado 27/10/2026 12:36
Festival de Cannes/Divulgação
Cannes: Victorian Psycho, de Zachary Wigon

A jovem Winifred Notty (Maika Monroe) é uma governanta pronta para servir na casa dos grã-finos Mr. (Jason Isaacs) e Mrs. Pounds (Ruth Wilson). O casal tem dois filhos, Drusilla (Evie Templeton) e Andrew (Jacobi Jupe), que ficarão a cargo de Winifred. O único problema é que ela é completamente louca–e não se trata aqui da antiga ofensa de atribuir loucura às mulheres. O spoiler já está no título, que brinca com Psicopata Americano, de 2000. Você sabia que aquele filme teve uma sequencia? Um filme péssimo, onde a atriz Mila Kunis interpreta uma parente de Patrick Bateman, do original, que mata algumas pessoas na universidade.

Ainda bem que o novo filme não tenta estender a franquia. O título é só uma brincadeirinha com o que veio antes. Até porque Victorian Psycho tem um tom completamente diferente: é uma comédia. Cheia de matança e sangue, claro, mas uma comédia mesmo assim. E desde o começo acompanhamos de perto a mente desbaratada de Winifred. Em sua primeira cena, andando de carruagem até a mansão onde trabalhará, ela está recostada, com a cabeça deitada em um ângulo bem esquisito. A câmera está curvada, como ela, que olha diretamente para a lente. Ouvimos seus pensamentos, e Winifred sabe que estamos assistindo sua história. Quando ela levanta, a câmera segue o ângulo de seu rosto perfeitamente. É um sinal, de que estamos em suas mãos, sob seu domínio.

É um pouco estranho contar com Maika Monroe no papel principal, visto que a Inglaterra tem uma safra própria de talentos. Só que neste quesito, o filme também conversa com seu antecessor. Christian Bale, ator que interpretou o americano Patrick Bateman, é britânico. Monroe parece ter se posicionado como a maior “Scream Queen” da atualidade, desde o filme que a revelou, It Follows, em 2014. Monroe é uma escolha acertada, pois ela consegue trazer a dimensão da metalinguagem à personagem. É sua distância da emoção e seu conforto na loucura que conseguem fazer o espectador aceitar cada risada que o filme provoca.

Tem um demônio vivendo dentro da governanta, um que ela apelidou de Fred. Pelo menos é assim que ela se explica para nós. Sua carreira de babá é cheia de azares: uma criança se afogou, outros dois se perderam. Como diabos ela veio parar na casa de agora? O filme deixa claro que tudo faz parte de um plano, e assim devemos questionar o quanto Winifred é louca e o quanto se deve a certas injustiças que ela pretende consertar.

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Considerando o quanto o cinema britânico sempre se ocupou em explorar as diferenças de classe de hoje e do passad0, é possível imaginar que um filme sobre uma mulher de classe trabalhadora semeando o caos dentro de uma família seja rico em metáfora e mensagem. Só que Victorian Psycho não é esse filme. Algumas ideias são afiadas, como a preferência que os pais tem na educação do filho homem, e não da menina. Muitas possibilidades são desperdiçadas, mas é porque o filme simplesmente não deseja ser nada além de uma comédia mórbida. Divirta-se.

Avaliação: Ótimo (4 estrelas)