Cannes: Paper Tiger, de James Gray
Queridinho de Cannes tem um filme bom, porém derivativo de sua própria obra

É uma tradição que artistas retratem a realidade que conheceram em suas vidas, mas no caso de James Gray, a fonte já deveria estar seca. É um caso estranhíssimo para um cineasta tão recorrente na competição do Festival de Cannes: impossível dizer que faz um filme ruim, mas ele parece estar somente se repetindo. Paper Tiger, seu novo filme, é a quarta ou quinta vez que conta a mesma história, de personagens se envolvendo com pequenas máfias locais, da cidade de Nova Iorque.
Adam Driver e Miles Teller interpretam irmãos com diferentes níveis de ambição. Irwin Pearl (Teller) é o inteligente da dupla. Engenheiro competente, vive num lar confortável com a esposa Hester (Scarlett Johansson) e dois filhos adolescentes (Gavin Goudey e Roman Engel). Parecem felizes, mas qualquer problema que venha a ocorrer pode ser devastador ao seu planejamento financeiro. Cheio de charme e meio playboy é o tio Gary (Adam Driver), um ex-policial recém-divorciado que usa ternos caros. Paper Tiger é tão familiar, que já sabemos algumas das lições a serem repassada: o que importa é família e tirar onda de bam-bam-bam não esconde uma alma solitária.
Tentando uma carreira solo, Gary traz uma oportunidade de ganhar dinheiro para o irmão. Uns pequenos empresários que ele conhece, russos, receberam um contrato da prefeitura e precisam de um engenheiro na equipe. Irwin está lisonjeado que sua experiência tem alguma importância, e a perspectiva de ganhar um bom dinheiro é exatamente o que precisa para conseguir bancar a futura faculdade pros filhos. Ele topa se enroscar com o irmão, mas qualquer membro do público sabe que uma negociata envolvendo contratos públicos e gente russa não pode ser sem toda uma categoria de problemas.
Estes já aparecem nos primeiros dias, quando o ingênuo Irwin leva os dois filhos para visitar um canteiro de obra no meio da noite. É uma decisão tão estúpida que fica difícil torcer pelos irmãos. O que Gray consegue fazer, porém, é uma sequencia aterrorizante que se sobrepõe à vida da família inteira. O coitado do Irwin não é um personagem dos Irmãos Coen, cuja ganância os coloca em esquemas criminosos. Ele realmente acredita que entrou num esquema legítimo, e sua ambição não é de ficar milionário, mas só conseguir um pouco de conforto para a família e uma educação prestigiosa para os filhos.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesÉ claro que Gary logo aparece para tentar resolver a parada, mas todo mundo já viu este filme antes. Cada decisão tomada piora a situação de todos, e assim por diante. Gray canibaliza seus filmes anteriores, especialmente We Own the Night ao solucionar o destino de seus personagens, nada do que surpreende. Por outro lado, seus filmes raramente são vistos por muita gente, então pode ser que Paper Tiger pareça novo para um grupo inteiro de espectadores.
Avaliação: Regular (2 estrelas)
