Cannes: O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro
Conto de fadas no meio do fascismo espanhol vem mais forte do que nunca.

Já se fazem vinte anos desde que o diretor mexicano Guillermo del Toro conquistou o mundo com a história de uma menina que navegava a guerra civil espanhola através da fantasia. O Labirinto do Fauno, cuja restauração abre a mostra Cannes Classics e o Festival, foi exibido em tela grande com presença da equipe. Em um discurso na sessão, Del Toro comentou o caos que foi entregar o filme a tempo de sua primeira sessão, o último filme a estrear na competição de 2006. Sincerão, ele disse que a produção deste filme foi uma das piores experiências de sua vida, feita com poucos recursos.
Pois se todo mundo duvidou do filme antes de sua estreia, sua maestria virou unanimidade após cada exibição. Até hoje, Del Toro é um dos poucos diretores-celebridades, reconhecido na rua não só por cinéfilos, mas também pelos antenados em cultura pop em geral. Nas décadas que separam este filme original de sua restauração, o diretor venceu inúmeros Oscars (incluindo de melhor filme e diretor por A Forma da Água), completando uma transformação de autor independente para titã de Hollywood, enchendo as telas do mundo com os monstros de sua imaginação.
O Labirinto do Fauno começa logo que a guerra civil da Espanha termina, com os fascistas no poder. Ofelia (Ivana Baquero) e sua mãe (Ariadne Gil) viajam de carro para uma casa de campo. Grávida com o filho de seu segundo marido, a mãe parece querer convencer sua filha de que tudo vai ficar bem. Um pouco mais tarde chega Vidal (Sergi Lopez), o padastro. Vilão da história, o capitão do exército é duríssimo e severo. Sua prioridade é a segurança do filho que está pra nascer, e assim a mãe de Ofelia passa seu tempo no quarto, acamada.
Inquieta, Ofelia fica livre para explorar o bosque em volta da casa, e assim começa a viver uma aventura num reino fantasioso. Uma noite ela conhece um fauno (Doug Jones), meio homem e meio bode, que precisa de sua ajuda. Só que o bosque não esconde apenas os monstros do filme, mas também um grupo de guerrilha que parece determinado a capturar o capitão Vidal. O que surpreendeu o mundo foi como Del Toro deu igual importância às duas histórias, misturando o fantasioso temerário da infância com a violência brutal da guerra.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesÉ também impossível ignorar a política mundial no momento desta re-exibição. Não se trata da velha disputa entre esquerda e direita, mas da nova rehabilitação do pensamento fascístico que vemos nas redes. Este novo ritual do Festival de Cannes, onde a cada ano a primeira sessão será de um filme restaurado é nobre e importante, pois coloca a preservação do audiovisual em um patamar de importância. Só que, apesar do excelente filme, também pode ter um efeito contra-producente, onde vemos o tanto que regridimos em nossa existência social.
Avaliação: Excelente (5 estrelas)
