Cannes: Minotaur, de Andreï Zviaguintsev
Ne Rússia contemporânea, é preciso sair do mar pra ver o mar.

Deve ter muito tempo que o diretor russo Andreï Zviaguintsev saiu de seu país natal. Figura constante do Festival de Cannes, seu primeiro filme a ter grande resposta crítica foi Leviathan, em 2014. Aquele filme fora filmado na Rússia e, enquanto crítico do governo do país, mascarava tudo com certa sutileza. Muita coisa mudou até 2026, e seu novo filme propõe confrontar a distopia de Vladimir Putin de frente, com dureza. Duvido que o diretor ainda habite o país.
Minotaur é sobre uma crise familiar. Gleb (Dmitriy Mazurov) é um empresário com dinheiro suficiente para viver uma vida confortável numa casa linda. Só que sua mulher, Galina (Iris Lebedeva), está claramente insatisfeita. O filho adolescente, Seryozha (Boris Kudrin), está sofrendo bullying na escola. Fora isso, apesar da família viver numa cidade pequena, longe de Moscou, a política da Guerra na Ucrânia está chegando a eles.
Gleb é um protótipo de oligarca russo, por isso é bem conectado e influente. Numa reunião na prefeitura, é informado que o exército precisa de homens e que ele será obrigado a fornecer nomes para o governo. É esta parte da trama que eleva Minotaur a uma obra de arte essencial de nossos tempos. Claro que Gleb não quer oferecer ninguém ao sacrifício do exército. Só que o fato de sua posição como oligarca endinheirado lhe conferir a habilidade de escolher quem mandar é uma metáfora não só russa, mas global.
Também vale a pena ressaltar que o filme dispensa a vilania clássica, mesmo no esquema engenhoso de Gleb. Sem querer sacrificar ninguém de sua empresa, ele tem um lampejo. Pede que a secretária coloque um anúncio no jornal anunciando 14 vagas de motorista de caminhão. Os candidatos serão contratados e pronto, Gleb tem 14 nomes para encaminhar ao exército. É bem provável que tudo aconteça tão rápido que ele nem precisará pagar o primeiro salário. Sim, Gleb não quer ofertar seus funcionários de sempre porque seria ruim para o funcionamento da empresa. Mas ele também não quer entregar que ele conhece à máquina de moer gente. As duas sensações podem ser verdade ao mesmo tempo neste filme.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO desenrolar da história de Galina envolve um amante, o jovem fotógrafo Anton (Yuriy Zavalnyouk) e a descoberta dele por um detetive particular de Gleb. O confronto entre Gleb e Anton revela que Minotaur é, na verdade, uma adaptação. Não que isto importe aos personagens, forçados a lidarem com as consequencias de se viver na Rússia atual. Uma investigação policial, por exemplo, tem um desfecho de humor mórbido. A vida é diferente quando se tem dinheiro: os problemas podem ser escanteados com influência.
Zviaguintsev quer dizer que seu país está sem bússola moral, que décadas de poder oligárquico e submissão a Vladimir Putin extraíram os vestígios de humanidade que poderiam manter uma família unida. O momento mais claro da metáfora se dá quando os ônibus de transporte do exército chegam na cidade e dezenas de jovens se despedem de suas famílias aos prantos. Cada família ali é mais unida que a de Gleb. Mas são elas que vão à guerra.
Avaliação: Excelente (5 estrelas)
