Cannes: Machine Gun Kelly, de Roger Corman
Mestre dos filme-B foi um diretor muito melhor do que a memória do público se recorda

A jornada de se olhar para trás durante este Festival de Cannes está cheia de tesouros. Se a primeira projeção deste ano foi O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro, hoje a sessão celebra alguém cujos trabalhos claramente inspiraram o mexicano. Roger Corman, morto em 2024 aos 94 anos, montou uma produtora na década de 40 e deu os primeiros empregos no cinema a nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Ron Howard, Peter Bogdanovich, Jonathan Demme, Joe Dante, James Cameron, John Sayles, Monte Hellman, Carl Franklin e Curtis Hanson. Ganhou uma fortuna como o primeiro diretor a importar filmes de arte europeus para os EUA (a primeira sessão de um filme de Ingmar Bergman no continente foi graças a ele).
Corman é, até hoje, mais conhecido por estes começos do que pelo próprio trabalho de diretor, que foi modesto, porém ousado. Tratou, desde o começo de adaptações literárias, como os contos de Edgar Allan Poe e histórias sobre juventude e igualdade racial. No filme restaurado para esta sessão, Corman colocou sua habilidade na produção de um filme de gângster. Com um breve discurso de sua viúva e filhas, aonde enfatizaram o amor do diretor pelo cinema assim como sua habilidade sobre-humana de dar soluções estéticas para mascarar os baixos orçamentos de seus filmes, a história começa com um assalto a banco que explicita tudo que elas disseram: um carro estaciona na porta do banco e entram os assaltantes, carregando metralhadoras. Só que em vez da câmera seguí-los para assistirmos o assalto, vemos tudo em silhueta, nas paredes.
“Machine Gun” Kelly é o primeiríssimo papel de Charles Bronson no cinema. Mais uma descoberta de Corman. Só que Kelly não é mais um machão clichê do filme de ação. O que mais surpreende aqui é a natureza conflitante de um homem que, por dentro, é um completo perdedor inseguro e, por fora, é dependente de sua metralhadora. E Bronson é capaz de convencer nesta dualidade. Não é um filme sutil, e nem a performance, só que é uma demonstração de muito mais capacidade do que este ator escolheu mostrar na segunda metade de sua carreira.
Kelly e sua gangue fogem após o assalto a banco do início e precisam dar aquela famosa acalmada enquanto a polícia os procura. A fuga é detalhada, mostrando a troca de carros, o desmantelamento de armas e trocas de figurino. São profissionais, claramente. Só que desde o começo, Kelly dá sinais de sua fraqueza espiritual, provocando os outros sem necessidade e demonstrando um ciúme fora de controle de sua namorada, Flo (Susan Cabot). É ela que o controla, logo descobrimos, e a psicologia barata do filme, com o homem que gosta de usar uma metralhadora, constantemente emasculado pela namorada poderosa, começa a dominar.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesNo final das contas, Machine Gun Kelly tem muito a mostrar em menos de uma hora e meia–incluindo jaguares e uma trama de sequestro–e o curto espaço de tempo mantém o filme rápido o bastante para não nos incomodarmos muito.
Avaliação: Bom (3 estrelas)
