Cannes: Hope, de Na Hong-Jin
Aventura que persegue a destruição de uma pequena cidade sul coreano é uma obra-prima enquanto esconde seus monstros.

Quando Godzilla estreou nas telas de cinema em 1954, sua dominância do gênero de filmes de monstros gigantes deslocou para a Ásia as referências que antes vinham de King Kong, nos Estados Unidos. O gorila gigante, como Godzilla, também era um animal solto numa metrópole que destruía tudo em seu caminho. O que muda com cada filme é a metáfora do monstro. Os filmes que ficam para a posteridade capturam coisas além de seus efeitos especiais. Godzilla, por exemplo, sempre foi um réptil gigante criado por experimentos atômicos na era pós-Hiroshima.
Uma grata surpresa, aqui pela metade do Festival de Cannes, é uma aventura destas de uma voz contemporânea do cinema sul-coreano, o diretor Na Hong-Jin. Curioso afirmar, aliás, que outro diretor sul-coreano, Bong Joon Ho, do sucesso mundial Parasita, já fez o seu, lá em 2006. No seu filme O Hospedeiro, um monstro emerge dos esgotos depois que o exército dos Estados Unidos despeja materiais químicos pelo ralo de suas bases em Seoul. A tensão de guerra armada no país, também parece informar o filme de hoje, Hope.
Hope, ou Esperança, é o nome de uma pequena cidade rural perto da fronteira com a Coréia do Norte. Na manhã de um dia como os outros, o corpo mutilado de um boi aparece na estrada. Nenhum dos caçadores locais consegue identificar qual tipo de animal teria causado os ferimentos em sua presa, mas não demora muito para que o policial Bum-seok (Hwang Jung-min) descubra que está lidando com algo que nunca viu antes. Quando ele volta à cidade, uma rota de destruição se revela diretamente no caminho dos prédios, casas e ruas do lugar. O monstro, escondido da câmera por quase uma hora de duração, migrou da floresta para a urbanidade, e agora o policial tem que detê-lo.
Nada se compara à esta sequencia de perseguição desde o neo-clássico Mad Max: Estrada da Fúria. Só que enquanto o australiano George Miller pôde usar desertos vazios para caprichar com seu caos criativo numa realidade inventada, a equipe de arte, efeitos e sets de Hope parece ter criado E destruído uma cidade inteira para seu filme. Enquanto o monstro é perseguido, primeiro a pé e depois a bordo de um veículo com a super-policial Sung-ae (Jung Ho-yeon) e outro personagem local, Sung-ki (Zo In-sung).
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesDe maneira independente deste caos incrível, o grupo de caçadores do começo do filme adentra a floresta para resolver de onde o monstro surgiu. É importante dizer que, para os propósitos da história, vale muito evitar qualquer tipo de revelação, exceto para dizer que sim, tudo é revelado. Aos poucos e num fluxo contínuo, o diretor mostra que tem um verdadeiro mix de ideias ambiciosas em seu roteiro, e a presença do monstro tem a metáfora da atualidade. Hope talvez seja um dos filmes mais ambiciosos aqui apresentados, e é justamente por estas revelações que o filme quase afunda.
De maneira simples e direta, os efeitos especiais aqui apresentados estão muito aquém do que a história ambiciona. É uma distração forte, difícil de ignorar na era de computação gráfica que Hollywood nos apresentou. Hope tem um forte senso de humor, e talvez poderia até ser defendido como uma sátira deste tipo de filme, só que mesmo assim, não é o suficiente. A primazia de sua primeira hora (o filme tem mais de 2 horas e meia) ainda vale a pena, na maior tela possível, só que, no final das contas, Hope não sustenta o incrível.
Avaliação: Bom (3 estrelas)



