Cannes: Gentle Monster, de Marie Kreutzer
O que você faz quando descobre que mal conhece o seu parceiro?

Logo no começo do filme Gentle Monster, Lucy (Léa Seydoux) recebe uma notícia tão devastadora que até entendemos sua relutância em aceitar os fato. A jovem é uma compositora e música que reinterpreta canções do mundo pop de maneira avant-garde. Viaja pela Europa fazendo shows frequentados pelo mesmo público da música clássica. Em casa, mora com o marido Philip (Laurence Rupp) e o filho pequeno, Johnny (Malo Blanchet). Tudo está em ordem no ambiente doméstico. Mais do que em ordem, passional, pelo que vemos numa cena de sexo fervorosa do casal.
Morando em uma casa antiga no campo, podemos discernir que a unidade familiar basta para si mesma. Logo no começo do filme, o casal ainda mora na cidade de Munique, mas um dia Philip começa a ter ataques de pânico e ele implora que a família se mude para algum lugar mais tranquilo. O plano dá certo por um tempo. Até que a polícia bate na porta uma manhã com um mandado de prisão para Philip. A acusação: distribuição de pornografia infantil.
É um ponto de partida excelente para um drama, e seu título, que se traduz em Mostro Gentil, captura um pouco da dualidade que toma conta da mente de Lucy. Philip nega, de prontidão, todas as acusações. Mas, se for verdade que ele é um pedófilo, o que Lucy faz com o amor que sempre sentiu por ele? Mais do que isso, o que deve ser feito com o filho do casal? Será que aconteceu alguma coisa com ele? A vida mudou para sempre após a acusação, e o filme é inteligente ao lidar com duas coisas ao mesmo tempo: o estado de espírito de Lucy, e todos os procedimentos práticos que precisam acontecer após a prisão.
O filme tem, então, uma narrativa procedural, do passo-a-passo pós evento. Esta parte é clara e objetiva, personificada na policial Elsa Kühn (Jella Haase), que conduz o caso. Experiente, ela é capaz de prever tudo que está passando na cabeça de Lucy, e por isso tenta aconselha-la de maneira clara e fria. Elsa tem os próprios problemas. Com um pai idoso, que não pode viver sozinho, ela tem de administrar as reclamações de assédio sexual que todas as enfermeiras reportam. É nesse ponto que o filme peca um pouco, numa metáfora forçada sobre o domínio inescapável do abuso masculino.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO filme é mais forte quando foca na família central. Para cada argumento ou prova de seu comportamento, Philip tem uma explicação. Apesar de detido, ele é logo solto, afiançado, enquanto o processo continua. (Um dos personagens mais interessantes é um amigo do casal, advogado, que também navega as mesmas dúvidas de Lucy.) Com o marido em casa, como ficam as dúvidas de Lucy sobre seu comportamento com o filho do casal? Por um longo tempo, o espectador pode duvidar se o filme esclarecerá ou não a culpabilidade de Philip, como foi no caso de Anatomia de uma Queda. Apesar do filme ter uma relutância em resolver definitivamente suas contradições, pode-se dizer que ele pretende deixar tudo bem claro.
Avaliação: Bom (3 estrelas)
