Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Cultura

Cannes: Amarga Navidad, de Pedro Almodóvar

As fontes de inspiração do maestro espanhol estão secando.

20/05/2026 15:29, atualizado 20/10/2026 12:32
Festival de Cannes/Divulgação
Cannes: Amarga Navidad, de Pedro Almodóvar

O diretor espanhol Pedro Almodóvar sempre compete pela Palma de Ouro e nunca ganhou. Assim, cada novo trabalho traz a esperança de que, desta vez, ele tem uma chance ao troféu que falta em sua carreira. Só que, aos 77 anos, parece que a fonte de suas ideias está secando. Amarga Navidad é uma brincadeira autoreferencial que desagua no dramalhão mais do que na comédia. Não há nada de errado nisto, seu último grande filme, Dolor y Gloria, tem um personagem principal que é diretor de cinema. Só que aquele filme é sempre um drama, e por isso fica coerente. No novo, a troca constante de tom trabalha contra os personagens.

Raúl (Leonardo Sbaraglia) é um diretor sem inspiração. Precisando voltar à ativa, ele começa a canibalizar histórias das pessoas que o cercam, em especial sua produtora, Mónica (Aitana Sánchez-Gijón). Ela está saindo num período sabático enquanto cuida de uma amiga, cujo filho está doente. Antes de partir, porém, ela descobre o roteiro de Raúl e fica furiosa.

Nesta história, Elsa (Bárbara Lennie) é uma diretora com alguns filmes cult e pouco vistos na carreira. Para pagar as contas, ela filma comerciais e, uma noite num stripclub com amigas, fica impressionada com o físico de um dos jovens dançarinos, Bonifacio (Patrick Criado). Ela o convida para estrelar um comercial de cuecas. A comédia em torno destes personagens é o ponto alto do filme. Em uma das cenas iniciais, sofrendo dores de cabeça crônicas, vai ao hospital com Bonifacio. É o mesmo hospital onde ela fez um de seus filmes, agora cult. Mistificada, uma das enfermeiras pergunta se os filmes cult da diretora são, por esta caracterização, religiosos.

Os limites entre as vidas dos conhecidos de Elsa e Raúl vão sumindo. Elsa vai passando tempo com Patricia (Victoria Luengo), que é sempre largada em casa com o filho pequeno enquanto o marido viaja a trabalha e, provavelmente, transa muito. Meio que do nada aparece Natalia (Milena Smit), jovem mulher deprimida e vivendo o luto de ter perdido um filho.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

A relação entre artista e fonte inspiradora é rica e complicada, só que Almodóvar prefere brincar com esquemas narrativas a realmente explorar esta questão. Assistir a história que Raúl está escrevendo começa a valer cada vez menos, especialmente no sentido emocional que se pede ao espectador. A carne, o real conflito, não está com Elsa, mas sim entre Raúl e Mónica. O confronto final entre os dois personagens não oferece muito e termina abruptamente.

É interessante que Almodóvar não está tão interessado em defender Raúl, claramente seu alter ego. O que o interessa é revelar que a arte sempre pega emprestado da vida real para se concretizar. É com isso que ele deveria ter ocupado o filme, e não com a história que emerge dali.

Avaliação: Ruim (1 estrela)