Sem Seu Sangue: uma conversa com Alice Furtado e elenco

Rodado no Rio de Janeiro e em Paraty, primeiro longa de Alice Furtado estreia na mostra Quinzena dos Realizadores, no Festival de Cannes

Quinzena dos Realizadores/Divulgação

atualizado 29/02/2020 16:40

O Brasil tem presença maciça no Festival de Cannes de 2019. Após a apresentação de longas de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles em competição principal e de Karim Aïnouz na mostra Un Certain Regard, é a vez de Alice Furtado, desta vez na mostra Quinzena dos Realizadores. Só que em contraponto aos dois primeiros, ambos cineastas veteranos que já apresentaram longas-metragens na Croisette, Furtado apresenta aqui o seu primeiro, “Sem Seu Sangue”. (Ela já esteve em Cannes com o curta-metragem “Duelo Antes da Noite”.)

O filme conta a história de Sílvia (Luiza Kosovski), adolescente um tanto desestimulada quando conhece Artur (Juan Paiva), um colega de escola cuja hemofilia o imbui de uma rebeldia indomável. O relacionamento dos dois une temas universais como o amor adolescente e o desafio à morte em um caldeirão com referências ao cinema de terror e e pitadas do sobrenatural. Confira nossa crítica.

O Metrópoles conversou com Alice Furtado e os atores Luiza Kosovski, Juan Paiva, e Digão Ribeiro, confira:

Mesmo se tratando de um filme com um aspecto meio sobrenatural, ele carrega muita emoção, e é impossível não imaginar que ele tenha muita coisa real, coisas da sua vida mesmo.

Alice Furtado: Quando eu era muito jovem, também tive uma ruptura amorosa que eu vivi de uma forma muito intensa, e eu acho que todas essas coisas que acontecem no corpo vêm muito de uma experiência pessoal mesmo, eu também fui em vários médicos, também fiz vários exames….fiz endoscopia no mesmo médico que faz no filme, naquela mesma clínica. Isso é algo que eu trago pro filme, de uma forma que eu consiga filmar, construir a partir dessas emoções, que eu conheço muito bem… É aí que eu tento me aproximar dessa personagem.

E o amor adolescente, aquele que a gente imagina durar pra sempre, é quando as emoções surgem mais fortes…

Luiza Kosovski: O fato de eles serem adolescentes é essencial para a relação deles rolar dessa forma. Eu acho que é justamente sobre o primeiro amor e como esse primeiro amor pode tomar você… Minha personagem é uma pessoa que não tem muito apreço por nada na vida, ela não tem muitos amigos, ela caga pros pais, e aí, quando aparece o Arthur, é o primeiro momento em que ela sente uma coisa intensa que faz ela correr atrás, ela querer viver mesmo, justamente por ele ser um personagem também que é muito pra cima da vida. Eles precisam ser adolescentes pra existir esse tipo de relação que foi criado e essa forma de amor.

Juan Paiva: Eu super concordo com o que a Luiza falou, e eu acho que as personagens elas se identificam, elas são diferentes do mundo “normal”. É aquilo de viver intensamente, de viver cada momento, e os dois juntos no “eu e você contra o mundo”, sabe?

Alice: Acho que os adolescentes, os jovens, vivem tudo com muita intensidade. Muitas coisas acontecendo pela primeira vez, muitas descobertas. E os adultos têm todas as camadas de pragmatismo, de vida real, que a gente já assume dentro do estar no mundo. Pagar as contas…enfim, as preocupações são muito mais pragmáticas, assim são muito menos “olha como o mundo é interessante, como o mundo é bonito”. Pessoas adultas sabem lidar com o outro, sabem lidar com a perda, né?

A vida sem a paixão adolescente, não necessariamente a paixão por um outro, mas pela vida, é um pouco morto-vivo?

Alice: Eu acho que a vida adulta é um pouco medicada demais… A gente não se permite viver esse tipo de emoção, tão forte assim, normalmente, porque atrasa, porque você perde sua funcionalidade, sua rotina pára de funcionar da mesma forma. Então acho que o universo adulto é esse universo que se medica de cara, enfim… Estou falando de uma classe alta que realmente tem esse acesso, psiquiatra e tratamentos, mas tem esse lado assim de não deixar a produtividade ser interrompida.

O personagem do Juan, Artur, é portador de hemofilia, uma doença que impede a coagulação do sangue e pode facilmente causar uma fatalidade. Só que, ao mesmo tempo, ele dedica seu tempo a atividades muito arriscadas, motocicleta, skate, futebol…

Juan: Eu acho que não é um desejo ali e tal, ele só quer viver. Tipo, normal, vou viver da forma que eu quero e é isso. Então a doença não vai me dar um limite, nada vai me dar um limite, eu vou viver da minha forma e tá tranquilo. O que acontecer, consequência boa ou ruim, consequência, né. Mas pelo menos eu vou ter a consciência de que “ah, aproveitei cada segundo da minha vida, tô aproveitando cada momento de tudo e vou me arriscar sempre e vou fazer o que eu quero”. Eu acho que é isso.

Alice: Eu acho que ele é um cara que circula ali entre a vida e a morte o tempo todo, por um certo interesse. Tinha uma cena no filme que era a tatuagem das costas dele. É um texto do livro Tibetano dos Mortos, que fala justamente do que acontece no momento da morte. Ele é um personagem que já tem esse interesse, e também tem essa postura desafiadora. E a hemofilia serve para mim quase que como uma alegoria desse entre-lugares assim.

Entre os dois mundos, entre esses dois personagens, tem André, interpretado pelo Digão Ribeiro, que se aproxima da Sílvia após uma separação traumática entre ela e o Artur.

Digão Ribeiro: Ele tá numa fase ainda tipo jovem adulto, digamos assim. É interessante, quando a gente for pegar uma história, saber que existe um antes, que o se que passa na tela é um fragmento de uma lógica de tudo que ele viveu até aquele momento. E quando ele encontra essa menina, ele é seduzido por essa misteriosidade toda que ela tem. Ele tem até um pouco de cautela, com o que ele vai passar pra essa jovem que acabou de chegar ali, que tá cheia de mistérios, que ele sabe que é uma pessoa não muito comum, digamos assim.

Aí entramos pra atmosfera do filme, aonde aparecem várias referências, do cinema silencioso e de terror, da literatura.

Alice: No momento da oficina com os atores, eu mostrei alguns filmes cujos personagens tinham atitudes que eu achava que se aproximavam um pouquinho, principalmente dos dois protagonistas. Mas tinha de tudo, desde o filme lá do Terrence Malick com o “Badlands”. Aquele casal tem super a ver e eu queria que o Arthur se inspirasse um pouco no personagem desse filme. Mostrei um filme da Chantal Akerman também, “Portrait d’une jeune fille de la fin des années 60 à Bruxelles”, não pra imitar, mas mais pra entender qual era a atidude assim, porque eles são desafiadores de uma certa forma, os dois. Os dois são muito seguros de si e muito desafiadores em relação ao que tá em volta.

Digão: Acho que foi uma ótima sacada da Alice, pegar e misturar tudo, porque no nosso solo, o solo brasileiro ele é totalmente misturado, as culturas assim. Então eu acho que foi uma ótima sacada, acho que a personagem da Luiza ter várias referências de rituais, de outros povos, e juntar nisso pra poder tentar fazer o que ela acredita, eu acho que foi tipo um pulo do gato.

Luiza: É sim, ela pega todas as referências, transforma, e faz todo do jeito dela. Do jeito que a personagem acha que é, assim ela constrói. Mas como referência principal que a Alice me passou, ela me deu o livro chamado Cemitério dos Bichos.

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Imagino que, no meio deste conteúdo todo, muitas cenas tenham ficado de fora.

Alice: Quando a gente montou o primeiro corte, baseado no roteiro, eram duas horas e 45 de filme. A montagem foi muito difícil. Essa emoção toda que conduz o filme do início ao fim é muito difícil de ser construída pela montagem e, ao mesmo tempo, só a montagem faz isso, foi um processo de seis meses.

Juan: No roteiro, quando eu li, foi totalmente diferente do que eu imaginava, do que eu esperava e eu tive um retorno bem melhor do que eu imaginava. No Brasil, o meu público… Eu fico nervoso porque eu não sei o que eles estão pensando, não sei o que eles esperam do filme, eu não sei que tipo de filme eles querem assistir. Por mais que a gente dá um caminho, “ó o filme é assim, dessa forma e tal”, a galera vai imaginando uma outra coisa. Será que eles vão entender o que eu entendi e o que eu quero passar pra eles? Eu acho que o nervosismo vem disso.

Digão: Eu não assisti antes, a minha estreia foi aqui no festival. Fiquei um pouquinho mais nervoso que eles, porque não sabia o resultado do trabalho ainda. E aí foi um mix de emoções, ver o trabalho bem-feito, de muito suor, e muita entrega.

Esta entrevista foi editada para unir as repostas da diretora e do elenco, entrevistados separadamente.

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