Pequenas Criaturas resgata a Brasília dos anos 1980 em viagem nostálgica
Em Pequenas Criaturas, Helena se muda com a família para Brasília em 1986, onde precisa se adaptar ao novo lar e às mudanças familiares

Pequenas Criaturas, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (23/7), retrata a história de centenas de famílias transferidas para Brasília quando a capital ainda construía a própria identidade. Além dos conflitos familiares vividos por uma mãe recém-chegada e os dois filhos, o longa conduz o público por uma viagem nostálgica à cidade na década de 1980.
A primeira cena traduz com precisão a atmosfera da obra. Em frente ao Aeroporto de Brasília, reconstruído no Brasília Palace para reproduzir a época, Helena (Carolina Dieckmann) se despede do marido, que viaja a trabalho poucos dias após a mudança da família. Logo nos primeiros minutos, fica claro que a capital retratada é bem diferente da que existe hoje.

Atenção: este texto contém spoilers do filme!
Com o marido distante, Helena tenta se adaptar à nova rotina. Ao mesmo tempo, o filho mais velho, André (Théo Medon), vive as primeiras paixões e passa a perceber as crescentes tensões entre os pais. Já o caçula, Dudu (Lorenzo Mello), não larga a máscara de Planeta dos Macacos (1968) e transforma o cotidiano em uma sequência de aventuras.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO drama da família se mistura à paisagem brasiliense em diferentes momentos. Um deles acontece no tradicional Restaurante Roma, em funcionamento desde 1960, na Asa Sul. Durante a pré-estreia em Brasília, na última terça-feira (21/7), a referência despertou a memória do público. “Você lembra?”, ecoou uma espectadora nas sombras do Cine Brasília.

A bordo de uma Brasília Amarela, ao retornar para casa, em uma das recém-inauguradas superquadras, Helena decide telefonar para o quarto onde o marido está hospedado. A ligação, porém, é atendida por outra mulher. A partir desse momento, ela desvia o foco da desconfiança e passa a dedicar atenção à cadela Cacau, atropelada em uma das vias expressas do Distrito Federal.
A história também carrega marcas da infância da diretora Anne Pinheiro Guimarães. Filha de um diplomata, ela recriou a Brasília que conheceu nos primeiros anos de vida, hoje transformada pelo tempo. Para isso, gravou em regiões mais afastadas, capazes de representar áreas centrais, como a via L2, no Plano Piloto.
“A Brasília de 1986 vive na Brasília de hoje em alguns pontos, em alguns lugares. Não é exatamente como aqueles de 1986, como a L2 não é. A gente teve que procurar lugares um pouco mais afastados que lembrassem o estado de espírito que era Brasília de 1986, mas a vantagem é que a cidade é linda e ela na verdade abraça”, disse a diretora.
O interior dos blocos residenciais, onde os irmãos se aventuram, também ganham destaque. O Congresso Nacional, a Praça dos Três Poderes, o Eixão, o Nicolândia as tesourinhas e outros cartões-postais surgem como personagens silenciosos, ajudando a contar a história dos novos habitantes de uma capital que dava os primeiros passos.
O desfecho acontece no Cine Drive-In, inaugurado em 1973. O espaço reúne memória, atmosfera oitentista e simboliza a união da família ao fim da narrativa. Em meio a uma Brasília ampla, fria e ainda pouco ocupada, os personagens descobrem que a nova capital talvez não fosse tão desinteressante quanto parecia.

Ao chegar ao Cine Brasília, inaugurado um dia após a fundação da capital, em 1960, Carolina Dieckmann revelou estar com o “coração acelerado” por apresentar o filme ao público da cidade que recebeu as gravações. “A gente tentou ser fiel ao que era Brasília de 1986, não é a Brasília de agora. Mas eu acho que a maioria das pessoas que vai assistir o filme tem alguma referência dos anos 80 e acho que vai se identificar”, afirmou a atriz.















