Pastor Cláudio, o filme que busca resposta dos mistérios da ditadura

Documentário de Beth Formaggini esmiúça o trabalho do ex-delegado do Dops Cláudio Guerra durante o período do regime militar

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atualizado 25/03/2019 19:04

A diretora Beth Formaggini queria fazer um documentário sobre a ditadura militar: a ideia da historiadora era mostrar a luta de Ivanilda Veloso, esposa de um desaparecido político do regime. Itair Veloso foi alvo da Operação Radar, realizada nos anos 1970. Por obra do acaso, quando a equipe do filme começou a fazer as primeiras pesquisas sobre o assunto, foi publicado um livro que tinha relação direta com o caso, Memórias de uma Guerra Suja, de Rogério Medeiros e Marcelo Netto.

A obra conta com depoimentos de Cláudio Guerra, um ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), órgão histórico de repressão a movimentos populares. Nele, Guerra detalhou fatos históricos da época, como o atentado ao Riocentro, o assassinato de Zuzu Angel e os atentados com bombas à sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), além de tratar de seu principal trabalho naquele período: incinerar cadáveres dos porões da ditadura em uma usina de açúcar no interior do Rio de Janeiro.

Do interesse sobre Cláudio Guerra – hoje pastor evangélico –, nasceu Pastor Cláudio, documentário lançado nessa quinta-feira (21/3).

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Pastor Cláudio Guerra, o ex-delegado do Dops que falou sobre a ditadura militar

 

Entre os corpos ocultados por Guerra está o de Veloso. “Eu tinha uma esperança de esclarecer o que aconteceu com o Itair. A Ivanilda só tinha provas de sua prisão, não sabia como foi assassinado, quem o matou, onde está o corpo. São perguntas de todos os familiares dos desaparecidos políticos”, comenta a diretora. Diante da força dos depoimentos, Beth mudou ligeiramente o foco de seu documentário e o transformou em uma simbólica entrevista com o ex-delegado, hoje pastor evangélico.

Depois de quase um semestre de pesquisa, a equipe abordou Guerra, que aceitou dar a entrevista sem titubear. Marcaram o papo para 1º de abril de 2015, aniversário de 51 anos do golpe de 1964. Para conversar com o ex-delegado, Ruth escalou o psicólogo Eduardo Passos: especializado na prática clínica, ele trabalha com pessoas que sofreram violência ou perderam familiares em prisões ou em sessões de tortura. A conversa durou quatro horas e gerou pouco mais de 70 minutos de documentário.

A maior parte do filme tem informações que podem ser encontradas em reportagens ou nos relatórios da Comissão da Verdade. A questão é que, ao conversar com um psicólogo, aconteceram coisas não previstas no script. É o processo cinematográfico. Quando você coloca a pessoa em frente ao aparato fílmico, ela vai encarnar um personagem, alguém que ela quer que as pessoas vejam

Beth Formaggini, diretora de Pastor Cláudio

Embora o confronto presencial entre Ivanilda e Guerra não aconteça – uma escolha da diretora –, o pastor é exposto a questionamentos da viúva. Sobre o rosto do entrevistado, projetam-se imagens dos desaparecidos cujos cadáveres ele ocultou, além de uma entrevista com Ivanilda. “Pedimos que ela fizesse perguntas a ele. Levei a gravação para ele ouvir, não quis confrontá-lo com a presença dela. A ideia foi que ele reagisse às imagens”, lembra a diretora.

A parte mais apavorante de Pastor Cláudio é, no entanto, a constatação de que as forças violentas continuam atuando no país. “Ele mesmo confessa falar de apenas uma parte porque o silêncio é o que garante ele estar vivo. Quantos agentes do Estado participaram desses crimes e quantos se calaram? O Brasil não passou a história a limpo, ainda tem muita coisa para pesquisar, divulgar, as escolas precisam ensinar isso”, defende Beth.

 

Questionada sobre o atual momento político, Beth confirmou: parte da motivação do documentário foi a percepção de uma “direitização” da sociedade brasileira. “Vejo pessoas na rua pedindo a volta da ditadura e penso: pode ser alguém de extrema-direita ou alguém que não tem a menor noção do passado. É uma ignorância dos fatos, é como negar o formato da Terra. Realmente aconteceu, pessoas foram assassinadas, torturadas, desapareceram. Acho que há uma disputa de narrativa e eu, enquanto historiadora e professora, cumpro meu papel. Sabe o samba da Mangueira, ‘Brasil, meu nego, quero te contar a história que a história não conta’? Meu filme é isso”, define.

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