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Neil Young é um péssimo ator, é bom que se diga logo. Por isso não vá com muita sede ao pote para ver o filme Paradoxo, que estreou na última sexta-feira (23), na Netflix. Mas quem se importa? Uma das lendas do rock, o setentão bardo canadense que há 50 anos mora nos Estados Unidos não precisa provar nada a ninguém. E nem quer. Daí o seu papel no projeto na pele do temido Man In The Black Hat soar mais como uma piada ou “brincadeira séria”.

No filme que marca a estreia da eterna sereia Daryl Hannah como diretora de longas, ele é um, digamos assim, vilão do bem, famoso por assaltar bancos de sementes com comparsas da pesada, explorando o futuro num velho oeste em que as mulheres são joias raras, o néctar da vida. Já deu para sacar a metáfora no ar. O que nos leva àquele trecho da canção de Bob Dylan, “Bye And Bye”, do disco “Love And Theft” (2001).

“O futuro para mim é coisa do passado / Você foi meu primeiro amor e será o último”, canta.

São caubóis mineradores roqueiros que cavam a terra não em busca de ouro ou pedras preciosas, mas de artefatos que hoje rondam nosso presente caótico como fios de telefones fixos, celulares, telas e teclados de computadores e até um relógio despertador. Um deles acha uma pequena máquina fotográfica e surta de felicidade.

O roteiro, homenagem clara ao universo de Neil Young – com direito à referência a clássicos de sua carreira, como Harvest Moon e Pocahontas –, não dá muita pista do por que desta busca frenética nas exuberantes pradarias dos homens da Marlboro. Esse mistério que ronda a trama parece ser um charme à parte ou um problema narrativo. Tudo é muito abstrato e nonsense como “fumar uma cerveja e beber um bagulho”, como diz um dos personagens.

Sopa de marmota e Nietzsche
De repente, embrenhando-se pela bela paisagem selvagem cheia de animais e fauna feérica, eis que o “homem do chapéu preto” e seus comparsas se encontram numa tenda no meio do nada para uma jam session embalada pela canção Peace Trail, a mesma que dá título ao seu álbum de 2016. As pessoas se deixam levar pelo som e um passe mágico se apossa de todos.

“Lá no céu de tenda do arco-íris / Ninguém está olhando para você ou para mim”, canta Neil Young, acompanhado pela Promise Of The Real, a banda dos filhos de Willie Nelson, Lukas e Micah, ambos coadjuvantes na história.

Não é de hoje que Neil Young flerta com cinema. Seu fascínio pela ficção científica vem desde os tempos de 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968), do mestre Stanley Kubrick, que ele reverenciou no álbum After The Gold Rush (1970). Para se ter uma ideia, já em 1982, com o pseudônimo de Bernard Shakey, andou se aventurando atrás das câmeras na comédia Human Highway, sobre uma lanchonete de beira de estrada que vira point de alienígenas.

Já em 1987, na fábula Paixão Eterna, de Alan Rudolph, o cantor faz ponta como motorista de caminhão. No drama musical Greendale (2003) – no qual roteiriza, dirige e atua –, ele conta a história de uma pequena comunidade rural fustigada pelo progresso. Paradoxo parece mais uma volta aos tempos com gosto de ação entre amigos, os mesmos que, há mais de 30 anos, uniram forças para ajudar fazendeiros norte-americanos com o projeto Farm Aid.

Experimental e independente, Paradoxo, com montagem oscilante e câmera furtiva de clipe da MTV, surge como uma alegoria idílica confusa sobre o amor e a música, com mensagem ecológica no meio, daí a simbologia da semente. “Nada melhor do que a música para lavar a sujeira do dia. A música é o grande atributo da vida. Pastor, professor e alçador de corações”, filosofa um dos integrantes do bando citando Nietzsche após comer uma sopa de… marmota.

Talvez o melhor seja isso mesmo, ou seja, encarar o filme como uma grande jornada musical, um clipe em versão longa sobre as “viagens” de um nobre do folk rock.

Avaliação: Regular

 

 

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