Oscar 2026 escancara dívida histórica de Hollywood com artistas negros
Michael B. Jordan se consagrou, no último dia 15, como o sexto ator negro a vencer a categoria de Melhor Ator no Oscar 2026
atualizado
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Michael B. Jordan fez história no último dia 15 ao vencer o Oscar 2026 de Melhor Ator, tornando-se um dos poucos atores negros a conquistar a principal categoria de atuação da premiação. O astro de Pecadores citou seus antecessores no discurso de vitória e destacou que sua conquista só foi possível graças a quem veio antes.
A fala do ator chama atenção para um histórico de desigualdade no Oscar. Criada em 1929, a premiação — considerada o auge da carreira no cinema — consagrou apenas uma mulher negra como Melhor Atriz, seis homens negros — incluindo Michael — como Melhor Ator e nenhum diretor negro na categoria de direção.
O primeiro homem negro a vencer como Melhor Ator foi Sidney Poitier, em 1964, por Uma Voz nas Sombras, 35 anos após a criação do prêmio. Já Halle Berry segue como a única mulher negra a conquistar o Oscar de Melhor Atriz, por A Última Ceia, em 2002, mais de sete décadas depois da primeira cerimônia.
Os números são ainda mais expressivos na categoria de direção. Ao longo de quase um século, apenas alguns cineastas negros foram indicados, entre eles Spike Lee e Jordan Peele. Nenhum deles, no entanto, levou a estatueta de Melhor Diretor até hoje.
Veja os dados:
Vale lembrar que os dados consideram apenas três categorias das 24 que competem por prêmios. Historicamente, as categorias de Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Ator Coadjuvante são as que mais premiam artistas negros. Gigantes do cinema como Viola Davis, Denzel Washington, Whoopi Goldberg e Lupita Nyong’o já levaram prêmios em ambas.
#OscarsSoWhite
A ausência de vencedores negros no Oscar não é novidade e sequer um debate recente. Entre 2015 e 2016, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas foi alvo de duras críticas após anunciar uma lista de indicados com quase todos os artistas brancos nas principais categorias.
Na época, a hashtag #OscarsSoWhite (Oscar Tão Brancos, em tradução livre) viralizou nas redes sociais. O termo foi criado pela ativista April Reign e gerou críticas massivas contra a Academia responsável pelo prêmio, que criou um planejamento para melhorar a diversidade entre os seus membros.
“A campanha em si ficou no passado, mas não se pode afirmar que a questão está resolvida. Existiram avanços importantes e inegáveis nos últimos 10 anos, mas o trabalho não pode se encerrar. É preciso continuar dando condições de acesso ao cinema para jovens negros, mulheres e outros membros de comunidades sub-representadas de forma contínua. Não apenas nos Estados Unidos mas também em todos os outros fóruns relevantes do cinema internacional”, afirma Felipe Haurelhuk, cineasta e crítico de cinema.
Apesar da campanha e do debate em torno do tema, a professora do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM Dani Balbi afirma que é preciso voltar ao começo para entender a formação do Oscar e discutir o motivo da falta de reconhecimento pelo trabalho desses profissionais.
“Nesse período em que surge o Oscar, vivíamos num momento de fortalecimento dos movimentos reacionários, como a Ku Klux Klan. Os Estados Unidos é um país que, assim como o Brasil, tem uma tradição escravocrata, mas diferente do Brasil institucionalizou o seu racismo. Isso dificultou que as pessoas negras produzissem, atuassem”, explica.
Dani ainda pontua a história da atriz Hattie McDaniel, a primeira mulher negra a vencer o Oscar, na categoria Melhor Atriz Coadjuvante, em 1940. Na época, ela só pôde entrar no Hotel Ambassador, onde ocorria a cerimônia, após um pedido especial do produtor David O. Selznick. Ela foi obrigada a se sentar em uma mesa isolada, longe dos colegas, por causa da política de proibição de negros no espaço.
“Se considerarmos o período quase centenário de existência da Academia, poderíamos falar em exceções ou desvios estatísticos. Mas desde que a organização se comprometeu com metas e objetivos de representatividade, iniciados há cerca de 10 anos, as mudanças são evidentes e tendem a se aprofundar. Hoje, nenhum filme pode concorrer à categoria principal se não preencher requisitos de inclusão dos chamados grupos sub-representados, tanto na frente como atrás das câmeras”, emenda Felipe.
E o futuro?
Especialistas apontam que a mudança passa, sobretudo, pela composição de quem vota no Oscar. Para eles, não basta ampliar a presença de pessoas negras na produção — é preciso garantir representatividade também nos espaços de decisão.
“Não basta negros ocuparem os espaços de desenvolvimento e produção cinematográfica. É preciso haver essa mesma preocupação nas curadorias, júris, empresas de distribuição, agências de fomento e em outros espaços de circulação do cinema”, afirma Felipe.
Já Dani avalia que a Academia “não está alheia às suscetibilidades da política” e, por isso, vem renovando seu corpo de membros à medida que os debates avançam.

“A gente popularizou o acesso aos meios de produção, principalmente por conta do digital. Essas pessoas de comunidades que antes não teriam acesso a mecânica do audiovisual acabem tendo isso. É uma realidade do mundo inteiro. Fica difícil pensar nesse cenário [de representatividade], a não ser que haja uma decisão radical de redistribuição de recursos e mudança da função de projeção do símbolo do que é ser norte-americano para os Estados Unidos e para o mundo”, finaliza.
“Ainda não atingimos uma representatividade ideal, mas as mudanças são claras tanto no tipo de projetos indicados quanto nos profissionais envolvidos, que hoje são muito mais diversificados e jovens. E é por isso que projetos como Pecadores quebram recordes de indicações, países como o Brasil chegam ao Oscar de Melhor Filme Internacional e filmes como Parasita quebram barreiras antes intransponíveis“, finaliza o crítico de cinema.














