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“Nocturama”, controverso filme francês sobre terrorismo no mundo contemporâneo, entrou na Netflix brasileira. Sob o radar dos cinéfilos, sequer chegou a estrear nos cinemas brasileiros: passou no Festival do Rio 2016 após competir na mostra de San Sebastián, na Espanha, e lá provocar burburinho da crítica internacional.

Pudera. Dirigido pelo francês Bertrand Bonello, do provocativo drama de época “L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância” (2011), “Nocturama” começou a circular por festivais com a memória do mundo ainda abalada por três recentes ataques terroristas na França – Charlie Hebdo, os crimes em série em Paris e o Dia da Bastilha, em Nice.

 

No filme de Bonello, a diversidade multicultural francesa, tão vítima de intolerância em tempos de terror e paranoia, é representada por sete adolescentes. Eles não esboçam expressões de fácil leitura.

Parecem tão aborrecidos, entediados e lacônicos quanto os meninos de “Elefante” (2003), obra-prima de Gus Van Sant baseada parcialmente no tiroteio de Columbine (1999). De qualquer maneira, esses jovens rodam por Paris orquestrando e realizando ataques terroristas de toda sorte.

Se “Nocturama” fosse um filme comum sobre violência urbana e guerra ao terror, encontraríamos uma narrativa dividida entre a fuga dos extremistas e a parruda ação policial planejada para capturá-los e provavelmente matá-los.

Sem fazer qualquer julgamento sobre as ações dos personagens, Bonello prefere escolher a via enigmática de retratar o terrorismo de forma abstrata. Os sete adolescentes se refugiam num shopping center como os sobreviventes de “Despertar dos Mortos” (1978). A cidade, agora esvaziada pelo pânico, absorve mais um trauma.

No centro de compras, essa síntese da juventude francesa se distrai com maquiagens, roupas de marca, bebidas, televisões de tela cristalina e potentes aparelhos de som. Um dos garotos lembra o jogador brasileiro Willian, do Chelsea e da seleção brasileira. Mas ele veste uma camisa oficial do Neymar. Outro encara um manequim com certo assombro: os dois, ele e o corpo sem vida, usam a mesma camiseta.

“Nocturama” é tanto filme de cerco eficiente, tenso e visualmente muitíssimo bem construído, quanto observação hipnotizante de um mundo imobilizado e desestabilizado pelo terror. Onde o consumo vazio parece ser o último gesto num tempo e num lugar em que a vida virou produto descartável.

 

 

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