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No fim de 2016, o Brasil contabilizava 3.168 salas de cinema em todo o país, segundo balanço da Agência Nacional do Cinema (Ancine). O órgão afirma que a taxa de crescimento em relação aos anos anteriores foi excelente. Apenas nas regiões Nordeste e Centro-Oeste, o acréscimo foi de 10% e 4%, respectivamente. Vinte e um municípios que não tinham telas abriram seus primeiros espaços para exibir filmes. Um deles foi Santa Maria, região administrativa do Distrito Federal. Mas a realidade em Brasília ainda está longe do ideal, e ainda reflete a desigualdade social do país.

Das 88 salas de cinema da capital federal, apenas 28 estão fora do Plano Piloto e RAs próximas da região central, como Guará e Sudoeste. A concentração no centro dificulta o acesso a filmes para quem não mora perto dos 14 shoppings que abrigam as telas, do Cine Brasília (EQS 106/107) ou mesmo para quem não tem carro para visitar o Cine Drive-in. Some a carência de espaços à dificuldade de transporte e, por consequência, o encarecimento do programa (passagens/combustível + cinema + lanche).

O resultado é a frequência desigual: 71% dos habitantes do Plano Piloto costumam ir ao cinema, enquanto a população de outras regiões vão bem menos, como Samambaia (35%) e São Sebastião (17%), conforme dados do Movimento Nossa Brasília.

Dos 15 complexos de cinema de Brasília, apenas dois não se localizam em shoppings: Cine Brasília, sala pública, e Drive-in, destinado a carros. Esse dado preocupa a pesquisadora Elen Geraldes, doutora em sociologia e professora da faculdade de comunicação da UnB. “Os cinemas em shoppings criam um critério socioeconômico. Associa-se o cinema a consumo”, analisa.

Joelson Miranda/Metrópoles

 

 

Poucas salas para muita gente
Gama (141.911), Planaltina (189.412), Recanto das Emas (145.304), Samambaia (254.439) e São Sebastião (100.161) têm mais de 100 mil habitantes, de acordo com o PDAD (Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios) do biênio 2015/2016. Não há nenhuma sala de cinema nessas cidades.

Em Ceilândia (489.351), a falta de acesso pode ser abrandada por causa da proximidade de Taguatinga (15 salas) e Águas Claras (4 salas). Ainda assim, em termos concretos, a maior RA do DF não tem cinema próprio.

 

O perfil dos filmes exibidos também gera um debate. Apenas três complexos de Brasília revelam programação com títulos alternativos: Cine Brasília, Cine Cultura (Liberty Mall) e Espaço Itaú (CasaPark). “Agora, um filme independente, qual a vocação dele? Não ser exibido no circuito comercial. O exibidor de shopping não vai querer, digamos, ‘empatar’ seu espaço com filme que ele acredita ser um ‘risco'”, aponta Elen.

O número de 3.168 é pequeno para o tamanho do Brasil. A média de salas por habitante é de 1 para cada 65 mil habitantes. No DF, a proporção cai para 33 mil. Para fazer uma comparação aberrante, saiba que há 40,759 salas nos Estados Unidos. Uma tela para cada 8 mil habitantes.

O que dizem as instituições
A falta de acesso ao cinema no Brasil também parece pouco estudada. Consultada pela reportagem, a Ancine respondeu, por meio de sua assessoria, que não possui um número considerado ideal para a quantidade de salas no Brasil.

O PDAD 2015 sequer mostra dados de acesso à cultura, quanto mais de frequência a cinema. “O PDAD 2015 não captou essas informações. Pelo planejamento, estes aspectos devem entrar na PDAD 2017”, argumentou a Codeplan (Companhia de Planejamento do DF), em nota.

O dado oficial mais próximo, portanto, é o do relatório de 2013: 18,49% vão ao cinema raramente, 13,42% frequentam às vezes e 58,98% não têm o hábito cinéfilo. Paradoxalmente, é na capital que acontece o evento de cinema mais tradicional do país. Em 2017, o Festival de Brasília caminha para sua 50ª edição, num DF ainda distante de dividir suas salas com a maior parte da população.

 

 

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