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Duas gerações de cinema se encontram na abertura da histórica 50ª edição do Festival de Brasília, o mais antigo, tradicional e politizado do país. Nesta sexta (15/9), em sessão para convidados, a tela do Cine Brasília exibe “Não Devore Meu Coração”, longa estrelado por Cauã Reymond e assinado pelo cineasta carioca Felipe Bragança, em sua primeira experiência solo na direção.

No palco, o veterano Nelson Pereira dos Santos, aos 89 anos, recebe da direção da mostra a medalha Paulo Emílio Sales Gomes, inaugurada em 2016 para homenagear grandes personalidades do cinema brasileiro – a primeira foi entregue ao crítico e ator Jean-Claude Bernardet.

 

Se o paulistano radicado no Rio de Janeiro rascunhou o Cinema Novo em “Rio, 40 Graus” (1955), longa de estreia embebido no neorrealismo italiano, Bragança tenta, à sua maneira, comentar o Brasil de ontem e de hoje em “Não Devore Meu Coração”.

Os adolescentes Joca, brasileiro, e Basano, indígena paraguaia, se apaixonam às margens do rio Apa. Memórias sangrentas da Guerra do Paraguai e a presença incômoda de Fernando (Cauã Reymond), motoqueiro envolvido com temida gangue, assombram o romance juvenil.

Apesar da óbvia referência ao conflito, Bragança foge de panoramas totalizantes e prefere “fragmentos de história, cacos afiados de memória que estão espalhados nos dias de hoje e no nosso imaginário”. “A Guerra do Paraguai é uma imensa cicatriz que carregamos dentro daquilo que chamamos de identidade brasileira. O filme fala dessa cicatriz.”

Bragança: “dirijo com respiração de escritor”
Aos 36 anos, Bragança começou a tocar o projeto em 2011, quando leu dois contos do autor Joca Reiners Terron nos quais o filme se baseia. Reymond curiosamente filmou outro longa de motoqueiros, “Reza a Lenda”, antes de “Não Devore Meu Coração”.

“Todos os meus personagens são apaixonados pelo mundo que os cerca, mas também seres apocalípticos”"
Felipe Bragança

A forte associação com o cinema de fantasia foi burilada ao lado de Marina Meliande nas duas experiências prévias como diretor: “A Alegria” (2010), vencedor de dois prêmios no Festival de Brasília, e “A Fuga da Mulher Gorila” (2009).

Bragança carrega esse interesse pelo desconhecido com ainda mais vigor no primeiro projeto solo. “Cinema para mim é fabulação. É o que me interessa: imagens que projetem sonhos e desejos e medos”, define.

Ao longo da última década, o carioca se tornou importante roteirista na produção brasileira contemporânea, transitando entre produtos comerciais (“Heleno”, cinebiografia futebolística com Rodrigo Santoro, “Copa Hotel”, série do GNT) e alternativos (“O Céu de Suely” e “Praia do Futuro”, ambos do diretor cearense Karim Aïnouz, e “Girimunho”).

“Eu escrevo com o coração de diretor. Eu dirijo com a respiração de um escritor. São processos físicos pouco controlados que se atravessam com naturalidade”, reflete o realizador. Em “Não Devore”, Bragança usou locações reais e escalou atores jovens e amadores que vivem na fronteira entre Brasil e Paraguai.

Abertura do 50º Festival de Brasília
Sexta (15/9), às 19h, no Cine Brasília. Sessão para convidados. Exibição dos filmes “Festejo Muito Pessoal” (9min, SP), de Carlos Adriano, e “Não Devore Meu Coração” (108min, RJ), de Felipe Bragança.

 

 

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