Em entrevista, Edgar Wright comenta Em Ritmo de Fuga, Hollywood e TV

Diretor britânico veio ao Brasil divulgar seu mais novo longa. Ao Metrópoles, falou sobre influências, franquias x filmes originais e séries

atualizado 30/07/2019 13:13

Carlos Alvarez/Getty Images

São Paulo (SP) – Aos 43 anos, o diretor Edgar Wright vive o momento mais popular e bem-sucedido da carreira com “Em Ritmo de Fuga”, filme que estreia quinta (27/7) nos cinemas brasileiros. Rodado e ambientado em Atlanta, o longa junta assaltos, perseguições de carro e tiroteios à vibração contagiante dos musicais.

Antes de reunir Ansel Elgort (“A Culpa É das Estrelas”), Kevin Spacey (“House of Cards”), Jamie Foxx (“Miami Vice”) e Jon Hamm (“Mad Men”) nos roubos e escapadas de “Em Ritmo de Fuga”, Wright era mais conhecido entre cinéfilos e plateias de cinema indie.

Com exceção do terror de zumbis “Todo Mundo Quase Morto” (2004), trabalho que o fez ser notado como diretor de assinatura própria após quase uma década na TV, seus outros longas tiveram coprodução americana. Mas jamais foram ambientados nos EUA.

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Wright completou a chamada trilogia Cornetto – sim, o sorvete – com a comédia policial “Chumbo Grosso” (2007) e a ficção científica etílica “Heróis de Ressaca” (2013), ambos ingleses.

Entre um e outro, ele adaptou o quadrinho canadense teen em “Scott Pilgrim Contra o Mundo” (2010) e viveu agruras em Hollywood quando se viu forçado a abandonar “Homem-Formiga” (2015), do universo Marvel/Disney, por diferenças criativas com os produtores.

Para todos os efeitos, “Em Ritmo de Fuga” significa uma volta por cima. Conquistou fatia considerável da crítica e acumulou mais de US$ 119 milhões mundialmente (até 25/7) a partir de um orçamento de US$ 34 milhões. Maior sucesso da carreira antes mesmo de estrear em praças relevantes como Brasil, China, Japão e Rússia.

Wright visitou o Brasil no começo da semana para lançar o filme e conversou com o Metrópoles sobre o que o levou a fazer um musical de ação. O inglês ainda enumerou os cineastas que enxerga como referência, comentou o fenômeno das franquias e a importância dos filmes originais em Hollywood.

Edgar, “Chumbo Grosso” é uma abordagem bem diferente no cinema de ação. Que novidade você tentou trazer para o gênero com “Em Ritmo de Fuga”?

Bom, eu acho que gosto de tentar coisas diferentes em cada novo projeto. Não gosto de ficar sempre repetindo a mesma coisa. Então sempre tento mexer no conteúdo, nos temas. “Em Ritmo de Fuga” parte da ideia de ser um filme de roubo e de perseguição de carros, mas por meio do ponto de vista subjetivo da música. Essa sempre foi a ideia, uma fita de ação que também fosse sobre música.

“Em Ritmo de Fuga” é um dos seus filmes mais inventivos visualmente, com um equilíbrio de planos-sequência e closes. Como foi adaptar o seu estilo a algo quase videoclíptico, musical, e planejar essas sequências com todo o elenco, não apenas Ansel?

Fiz algumas cenas em meus filmes anteriores que parecem números musicais. E eu gosto da ideia de levar isso ao limite, o mais longe possível, de fazer uma produção inteira assim. Achei que seria realmente interessante. Escrevi para as músicas. E, quanto aos atores, eles receberam o roteiro com as canções. Então eles poderiam ler o texto, mas também visualizá-lo e sobretudo ouvi-lo. Isso foi muito importante. O elenco embarcou comigo nessa ideia.

Tim P. Whitby/Getty Images for Sony Pictures

Outro dia você tuitou sobre a quantidade de filmes originais de grandes diretores estreando esse ano. Christopher Nolan (“Dunkirk”, que também estreia quinta, 27/7), Kathryn Bigelow (“Detroit”). Esse ano também tivemos “Fragmentado”, de Shyamalan…

Sim, gostei desse filme.

… e “Corra!”, de Jordan Peele…

Sim, sim, ele é meu amigo.

… e como você se vê trabalhando em Hollywood hoje, num momento em que a indústria é tão dependente de franquias, sequências, remakes? Você nunca fez uma continuação ou um filme de franquia, mas se vê tendo que se inserir nessas produções em algum momento no futuro?

Não sei, acho que… Por exemplo, quatro semanas atrás, eu não sabia como “Em Ritmo de Fuga” se sairia nas bilheterias. Antes de estrear, eu não fazia ideia. De repente, hoje estou muito feliz que o filme esteja indo tão bem em várias partes do mundo. Mesmo que eu não estivesse envolvido na produção, ficaria muito animado de ver um longa original tendo desempenho melhor que algumas franquias. Isso é maravilhoso! E é importante para a indústria.

Acho que os filmes de franquia são ok. Mas há muitos deles. É importante que os originais também tenham sucesso. Porque eles ainda são o futuro. Somente em janeiro (nos EUA), tivemos “Fragmentado” e “Corra!”, e ambos fizeram muita grana. “Em Ritmo de Fuga” está bem, “Dunkirk” também.

É importante para o futuro do cinema que o público abrace filmes originais. Quanto mais eles forem bem, mais os estúdios farão essas apostas criativas. As pessoas esquecem que “Star Wars” foi um filme original em 1977. E “Alien” em 1979. Em algum momento eles foram novidades. Não há nada de errado com os filmes de franquias. Houve dois realmente bons esse ano. No entanto, Hollywood precisa fazer mais filmes originais. Ponto final.

Seu primeiro (“A Fistful of Fingers”, 1995), vinte anos atrás, foi um faroeste. Gostaria de retornar ao gênero de novo, com mais orçamento?

Um faroeste? Sim, talvez! Eu gosto do gênero. Vários dos meus filmes favoritos são faroestes. Você sempre fica pensando no que poderia acrescentar ao gênero. Tenho interesse em muitos estilos diferentes. “Em Ritmo de Fuga” é um exemplo disso, um filme de assalto e de perseguição, mas todas as viradas envolvem música. E isso torna o filme diferente. Então… eu faria um faroeste se pudesse pensar em algo único para o gênero.

Depois desse filme de estreia, você passou bastante tempo na TV, fez séries como “Spaced” (1999-2001), até voltar ao cinema com “Todo Mundo Quase Morto” (2004). Hoje, a TV tem se destacado bastante. Você se vê trabalhando de novo com seriados?

Acho que sempre depende da história a ser contada. Não sou motivado por formatos. Tipo, eu não sento e penso, “ah, preciso fazer uma série de TV agora”. É mais algo como, “qual seria a história, ela se encaixaria na televisão?”. Já fiz TV antes e sei o quanto esse trabalho toma tempo. Vince Gilligan com “Breaking Bad” ou Matthew Weiner com “Mad Men”. Você não consegue fazer mais nada! É uma década de vida fazendo esse ou aquele seriado. Um trabalho em tempo integral. Não descartaria, mas teria que ser algo do tipo, “eu preciso fazer isso”.

Você falou na coletiva sobre a influência fundamental de “Caçador de Morte” (“The Driver”, 1978), de Walter Hill. Guillermo del Toro também citou esse filme no Twitter ao elogiar “Em Ritmo de Fuga”. Que outros grandes diretores de ação dos anos 1980 e 1990, a exemplo de John McTiernan, William Friedkin ou Michael Mann, são referências para você?

“Duro de Matar” (1988) é uma masterclass de como dirigir um filme de ação. Vi de novo recentemente. Um amigo meu nunca tinha visto e eu falei, “é isso que você verá agora mesmo”. E esse filme é tão bem feito, uma verdadeira aula. Walter Hill, William Friedkin, John Landis, Quentin Tarantino, Kathryn Bigelow, Michael Mann são diretores-chave que inspiraram meu novo filme.

*O repórter viajou a convite da Sony Pictures Brasil

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