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A crítica internacional não está nada satisfeita com Bohemian Rhapsody, e não é sem razão. O longa de Bryan Singer tem, é claro, todo o encanto e a escala épica que a ocasião exige. No entanto, escolhas infelizes de edição, passagens de tempo apressadas e uma estética sem padrão ou sentido fazem deste um filme mediano que poderia ter sido belíssimo.

Por se tratar de uma história de aproximadamente duas décadas, de uma banda que lançou 15 álbuns e mudou, de novo e de novo, a cena musical mundial, é impossível não apressar o ritmo. Mas mesmo com impressionantes 134 minutos, o longa não dá conta das várias fases do conjunto. A montagem, em vez de ajudar, só atrapalha, como no momento em que, para demonstrar a passagem do tempo e do Queen por diversas cidades do mundo, o diretor optou por mostrar Freddie (Rami Malek) fazendo poses, seguido por letreiros com os nomes dos destinos da banda.

É compreensível tentar ajustar a estética do filme à dos anos 1970 e 1980, mas em vez de fazer um trabalho meticuloso como o de O Aviador (2004), Bohemian Rhapsody se presta a pequenos clipes desta ou daquela música, com uma edição que teria sido horrorosa já na época, imagine em 2018. Em um dos momentos mais aguardados pelos fãs LGBT da banda, em que Freddie Mercury passa a viver plenamente sua sexualidade, o diretor limita-se a um clipe de péssimo gosto com Another One Bites The Dust.

Por fim, o apelo para o icônico – os óculos de aviador e o bigode emoldurando os lábios superiores de Mercury – faz com que a linha entre a lenda e o ser humano fique ainda mais tênue. É uma escolha tão infeliz quanto a de Spielberg em Lincoln (2012), que priorizou soturnos takes do conhecido perfil do personagem em detrimento da brilhante atuação de Daniel Day-Lewis. Ao optar pelos símbolos da lenda, o sentido da cinebiografia, de mostrar a pessoa por trás daquela história, se esvai.

Há de se dizer, o grande trunfo de Bohemian Rhapsody é seu elenco. A começar por Rami Malek no papel de Mercury, bicudo como reza a lenda, mas tão amável e tão real quanto as letras que cantava. Gwilym Lee vive o guitarrista Brian May com a ternura e a tranquilidade que o músico inspira até hoje, e a ponta de Mike Myers como o produtor Ray Foster é digna de aplauso. Aliás, o ponto alto do filme são os brilhantes diálogos entre seus personagens, com um humor inglês apuradíssimo.

Talvez um dos momentos mais tocantes do longa seja logo após Freddie receber o diagnóstico da AIDS. Ao se encaminhar, disfarçado, até as portas da clínica, o cantor é reconhecido por um jovem gay com a doença bastante avançada. Cantam juntos, e cada um segue seu caminho. Para os fãs, talvez este seja o maior presente de Bohemian Rhapsody.

Avaliação: Regular