Crítica: O Menino Que Descobriu o Vento é crônica sobre desigualdades

A nova produção da Netflix traz história "feel good" sobre um jovem em busca de salvar sua aldeia

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atualizado 07/03/2019 13:40

O Menino Que Descobriu o Vento, novo filme da Netflix, é daquelas produções feel good: na qual tudo termina bem e traz uma história inspiracional. Porém, o longa do diretor Chiwetel Ejiofor, já disponível no serviço de streaming, tem camadas mais densas, capazes de levar a reflexões maiores.

A produção acompanha a saga de William Kamkwamba (Maxwell Simba), um garoto determinado a “domar o vento”, a utilizar a força dos ares para gerar energia elétrica e assim salvar da fome sua aldeia no Malawi. Baseado em fatos reais, a fita tem grande capacidade de emocionar.

Mas há algo para além do óbvio, em cenas e diálogos aparecem sutis (e por vezes explicitas) críticas às políticas, economia e sociedade ocidentais. O dito Mundo Civilizado (do qual, nem África nem América do Sul fazem parte) impôs, ao longo da história, seus modelos, levando esses continentes a serem explorados e conviverem com a miséria.

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A saga acompanha a luta de William para salvar sua aldeia da fome

 

Antes que eu receba aqui a pecha de “comunista”, como tem se tornado praxe nas redes sociais, explico: O Menino Que Descobriu o Vento é uma leitura, por meio da jornada do herói, das brutais desigualdades econômicas que assolam o mundo.

Parte do roteiro – que se mostra confuso e esticado em momentos pontuais – tem como base o livro de Kamkwamba e Bryan Mealer. A falta de maior profundidade na ambientação política da África e das consequências ao continente dos atentados às Torres Gêmeas em 2001 pode ser justificada por uma história que se passa pelos olhos de um menino de 13 anos, pobremente educado.

 

Mesmo com a ausência do contexto político, há cenas emblemáticas, como a doentia e incessante de defesa do diretor da escola do tal “governo”, que funciona apenas para manter e aprofundar desigualdades. Trywell (Chiwetel Ejiofor), o pai, faz uma sutil crítica à importação dos modelos políticos que tanto caos trouxe ao continente africano: “A democracia é como mandioca importada, apodrece rapidamente”.

A batalha de Willian e sua irmã Annie (Lil Banda) para conseguirem estudar – ele no ensino médico, ela, no superior – levam à constatação da importância da universalização da educação. E mais, além do acesso, o filme demonstra claramente as dificuldades que os mais pobres sofrem: nem mesmo luz elétrica, eles tinham para fazer exercícios à noite, além de conviverem em um ambiente no qual o conhecimento formal é desvalorizado socialmente.

Empatia feel good
Política e sociologia (de botequim) à parte, O Menino Que Descobriu o Vento é uma produção capaz de deixar o espectador grudado na trama por quase duas horas. A luta da superação da miséria, o panorama desolador da fome, a corrupção geram empatia natural a luta de William.

O sonho altruísta do jovem, de desenvolver tecnologia para ajudar toda a aldeia, acrescenta mais um verniz de identificação ao personagem principal. Mesmo com problemas e falhas, o filme agrada e deixa aquela sensação boa ao final.

Avaliação: Bom

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