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Uma comunidade de homens pré-históricos na atual América Latina, vivendo no tempo dos dinossauros, tinham o futebol como tradição. As eras se passaram e seus descendentes tornaram-se caçadores de coelhos. De olho no minério do vale fértil onde essa comunidade vive, conquistadores da idade do bronze (com carregado sotaque espanhol), então, tomam o terreno à força.

Para recuperar a própria terra, os homens das cavernas desafiam os conquistadores em uma partida de futebol, esporte considerado sagrado pelos colonizadores.

A premissa de O Homem das Cavernas é exatamente essa: misturar sem qualquer coerência dinossauros, Idade da Pedra, Idade do Bronze, cerimônias sacrificiais maias e a tomada da América. Em um país onde o ensino de história pode deixar de ser obrigatório, um roteiro fantasioso desses é preocupante.

Antes fossem somente as inconsistências históricas: o longa perde muito em piadas ruins, com timing ainda pior. A Aardman Animations, estúdio responsável pela animação, assina produções primorosas como Fuga das Galinhas (2000) e Wallace & Gromit – A Batalha dos Vegetais (2005). No caso deste lançamento, no entanto, não consegue entregar nada remotamente parecido.

O trunfo do filme, claro, é a técnica. A animação em stop motion, com seus personagens construídos em massa de modelar, é muito bem executada. A movimentação dos cabelos e das roupas felpudas dos personagens, a iluminação primorosa e, sobretudo, as representações de líquidos (as lágrimas dos personagens são para emocionar fãs da Aardman) são, de fato, uma atração à parte. Talvez a única do longa.

2018, ano de Copa do Mundo na Russia, torna o lançamento do filme bastante oportuno. Mas usar o futebol para apoiar toda a história é o grande erro, resultando em uma narrativa recheada de clichês e contradições cujo final óbvio se anuncia no fim do primeiro ato. A dicotomia entre o bem e o mal aparece de forma nada sutil: enquanto os homens das cavernas convivem em paz com a natureza e uns com os outros, por exemplo, os colonizadores poluem o ambiente, destroem florestas, desrespeitam animais e são movidos pela fama e pela riqueza.

Na urgência em criar personagens rasos, o roteiro se contradiz com menos de duas horas de projeção. Gunna, a mocinha da Idade do Bronze que decide ajudar os homens das cavernas, é fã de futebol, mas não pode jogar por ser mulher. Ora, se o feminino é profano demais para estar em campo, há de se questionar o porquê da suprema comandante e representante do sagrado naquela comunidade ser uma rainha.

O Homem das Cavernas pode até ser divertido, mas não passa e um “filme para criança”. Daqueles que dão sossego aos pais por algumas horas em um final de semana, mas não vão marcar a infância de ninguém. Uma pena, tendo em vista que os outros longas do estúdio são memoráveis, capazes de formar expectadores com boa bagagem fílmica desde cedo.

Avaliação: Ruim

 

 

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O Homem das Cavernas
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