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O Doutrinador, o filme, adapta para cinema as histórias em quadrinhos do brasileiro Luciano Cunha. Em 2013, o autor soube aproveitar as Jornadas de Junho daquele ano para lançar um anti-herói nacional cuja missão é uma só: livrar o país da corrupção perseguindo e caçando políticos nefastos.

Cinco anos depois das HQs, à época um sucesso sobretudo na internet, o personagem retorna em um contexto convenientemente favorável a esse discurso de indignação e revolta com a podridão no poder. Como o Brasil de 2018, o filme também se passa em época de eleições.

O agente Miguel (Kiko Pissolato), da Divisão Armada Especial – uma espécie de Polícia Federal ficcional –, vê a filha morrer em seus braços após uma bala perdida. A garotinha chega ao hospital com vida, mas não a tempo de ser atendida pelo sistema público de saúde.

Ao mesmo tempo, a Operação Linfoma, cuja força-tarefa é executada pela DAE, tem como um de seus principais alvos o governador Sandro Correa (Eduardo Moscovis), que desviou milhões da saúde em conluio com outras autoridades eleitas pelo povo e acaba de anunciar candidatura à Presidência da República.

Miguel assume a máscara de gás e o capuz do Doutrinador durante um protesto de rua contra Correa. Mata o corrupto, literalmente, na porrada. Ali, ensanguentado, inicia uma cruzada contra todos os investigados na Linfoma, com a ajuda da hacker Nina (Tainá Medina).

Gustavo Bonafé, também diretor do recém-lançado Legalize Já: Amizade Nunca Morre, traduz a linguagem de HQ para a tela, misturando o lado mais alegórico da literatura pulp com traços de sátira e alegoria social – Marília Gabriela faz uma ministra do STF, para citar um das raras boas sacadas.

Nesse sentido, o filme explora muito mal as habilidades do anti-herói – ele é tão competente atrás de um rifle sniper quanto na luta corpo a corpo. A perseguição aos aliados de Correa se resolve num videoclipe sem graça e as cenas de ação certamente carecem de mais personalidade.

Por mais que no fim das contas o filme só pareça punk para garotos revoltados de 15 anos, o longa coleciona alguns acertos na caracterização: no clímax, concretiza uma ideia habitualmente ouvida em conversas de bar, aquela de “jogar uma bomba no Congresso”. Jogada extrema típica dos quadrinhos.

Ainda que o título queira funcionar mais como “puro” entretenimento  do que um thriller politizado, até para fugir de avaliações pesadas – seria o Doutrinador um vigilante fascista? –, há um certo tom de moralização que pode incomodar parcela do público. Como o discurso pronto das cenas finais, dito por Nina. “Ele fez do jeito dele. E você, o que vai fazer?”.

Avaliação: Ruim