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Crônicas delicadas sobre dilemas da adolescência marcaram a primeira noite de mostra competitiva no 50º Festival de Brasília. Prevista para as 19h deste sábado (16/9), a sessão só começou depois das 20h30 por causa de atrasos sucessivos no segmento paralelo Esses Corpos Indóceis, realizado durante a tarde.

Enquanto o curta “O Peixe” (PE) traz um registro sensorial de pescadores e seus peixes, “Nada” (MG) acompanha uma garota que não sabe o que quer fazer na vida. Fechando a primeira sessão dupla, que invadiu a madrugada com “Vazante” (SP) e “Peripatético” (SP), “Música para Quando as Luzes se Apagam” (RS) segue uma adolescente em pleno processo de autodescoberta corporal, sexual e social.

Leia as críticas dos filmes exibidos na primeira sessão de sábado (16/9) na mostra competitiva:

“Música para Quando as Luzes se Apagam” (RS): perambulações de uma travessia
O filme de estreia de Ismael Caneppele (roteirista de “Os Famosos e os Duendes da Morte”) segue a transformação de uma adolescente interiorana no Rio Grande do Sul enquanto ela é objeto de interesse de uma criadora de histórias

Quase toda noturna, com luzes fugidias de celulares, fogueiras e até de um bambolê cintilante de neon, a narrativa visualiza a metamorfose por dois olhares: o da cineasta forasteira (Julia Lemmertz), que conhece o cotidiano de Emelyn por meio de uma câmera despretensiosa mas atenta, e o do próprio Caneppele, tão dedicado às experiências da menina quanto as de seu alter ego personificado por Julia.

Nesse jogo de olhares, Emelyn aos poucos se transforma em Bernardo — tanto como autodescoberta autêntica quanto na caracterização de um personagem a ser filmado pela cineasta. Entre dores e delícias, frustrações e seduções, “Música” evoca um pouco de Gus Van Sant nessa proposta de traduzir mudanças de corpo e de mente na forma de crônica teen particular, próxima dos gestos (sim, há passeios de skate), delicada nas palavras.

“Música” brinca com os aspectos de tela (do 4:3 dos flagrantes filmados por Julia ao 1.85:1 em cenas pontuais), mas ao mesmo tempo parece truncado e difuso na tentativa de converter essas intimidades (de Emelyn/Bernardo e da cineasta cada vez mais envolvida pelo personagem) em algo para além do experimento.

Avaliação: Regular

“O Peixe” (PE): carícias da morte
Sem precisar de falas ou sequer murmúrios, o curta de Jonathas de Andrade visita uma vila de pescadores para retratar meia dúzia deles antes, durante e depois de gestos de trabalho. Lá, assim que um peixe é fisgado, os homens têm como hábito não abater a captura logo de cara.

Eles abraçam os peixes, fazem carícias nas escamas, escutam a respiração irregular da presa, entre estalos e espasmos, e até beijam o animal como um pai há tempos sem ver o filho mais velho. Um curta que combina bem um poderoso ritual homem-natureza, condensando o que existe de mais dominador na nossa relação com o não-humano, e realização técnica impecável, sobretudo no som.

Avaliação: Bom

“Nada” (MG): dane-se o vestibular
Prestes a fazer 18 anos, Bia (Clara Lima) gosta de saber que pode não saber o que quer fazer. A poucos dias do Enem, ela revela suas intenções de vestibular à coordenadora do colégio (Karina Teles inspirada) com um convicto e definitivo “nada”.

Conversando com a melhor amiga (rapper como ela, mas independente) e com os pais de classe média, Bia deixa claro que não quer “entrar nessas paradas”: faculdade, trabalho e carreira, necessariamente nesta ordem. Porque ela tem uma só certeza: não quer fazer nada.

Tão comunicativo com o público quanto a maioria das produções da Filmes de Plástico, responsável pelo belíssimo “Quintal”, o novo curta de Gabriel Martins (“Rapsódia para o Homem Negro”) ergue uma narrativa que sabe articular com autenticidade as interrogações que surgem na sempre atribulada passagem da adolescência para a vida adulta.

Avaliação: Bom

 

 

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