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O diretor mexicano Michel Franco vem de uma escola de cinema desconfortável, juntamente com Antonio Campos e Sean Durkin. Os três fazem um jogo de cadeiras nos filmes deles mesmos—quando um dirige, os outros produzem. Apesar de retratarem situações diversas, uma temática os une. Todos fazem filmes sobre individuos tentando se aclimatizar à sociedade, com resultados sempre complicados. O mundo é inóspito a estes protagonistas.

Chronic conseguiu fisgar um grande ator para o papel principal: Tim Roth, o eterno “Mr. Orange”, que já presenteou Michel Franco com o prêmio maior da mostra Un Certain Regard no festival de 2012. Aqui ele vive David, um enfermeiro profissional que especializa em pacientes em estados terminais de variadas doenças.

Às vezes o filme pode parecer um documentário enquanto acompanhamos a rotina de David com três pacientes diferentes. A câmera está sempre estática, observando e não interpretando. A primeira paciente que vemos é uma soropositiva magérrima, o segundo, um arquiteto bem sucedido que sofreu um derrame, e a terceira uma senhora recém diagnosticada com cancer.

A câmera mostra tudo da rotina de David e seus pacientes, incluindo banhos, refeições, longas sessões em frente à televisão e conversas desesperadas. Um excelente profissional, vemos que o trabalho de enfermeiro também envolve lidar com os parentes. Estes, por sua vez, requerem mais diplomacia e cuidado na conversa do que os próprios pacientes.

O filme, porém, não se contenta apenas em iluminar uma área pouco retratada da nossa sociedade. Durante a narrativa, e com toques bem sutis, descobrimos mais sobre David, que aqui não é um mero instrumento do roteiro, nos levando de caso em caso, mas sim um personagem com uma complexidade incrível neste filme tão pequeno. Chronic fala pouco e diz muito. Acompanhamos sua jornada de três pacientes até o final de cada um, de uma maneira ou de outra, ganhando perspectiva e posicionamento sobre temas polêmicos como eutanásia.

Não achei o final do filme tão ambiguo quanto outros espectadores, mas posso dizer que no começo achamos que é um filme sobre os pacientes, e acabamos por entender que é um filme sobre David. É sobre um indivíduo tentando fazer seu melhor num mundo hostil a ele, e a completa brutalidade da história deste enfermeiro, que descobrimos aos poucos, não é agradável de ser digerida. E nem deveria.

 

 

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