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A animação brasileira vive o seu melhor momento. A cada ano, a produção nacional ganha mais espaço, investimento e reconhecimento no exterior. Em 2017 – ano em que o Brasil tornou-se centenário no setor –, foram lançados sete longas-metragens. Apesar de parecer pouco, nos 22 anos anteriores havíamos assinado apenas quatro filmes em um mesmo ano (2014). Com 25 longas-metragens em fase de produção, em 2018 o país mais uma vez promete bater recorde.

Este ano, a 42ª edição do Festival de Cinema de Animação de Annecy (França) – a principal vitrine do gênero – prestou diversas homenagens ao Brasil, além de selecionar oito filmes nacionais. Desses, seis participaram em categorias competitivas, entre eles: o longa Tito & Os Pássaros (foto no topo), de Gustavo Steinberg, Gabriel Bitar e André Catoto, e o curta Guaxuma, de Nara Normande, primeira obra pernambucana a ser exibida no evento.

“Ser selecionada já foi uma grande vitória. A recepção do público foi ótima e isso me deixou muito feliz”, afirma a diretora, vencedora do Festival de Brasília 2014 pelo curta com atores Sem Coração, cuja direção dividiu com Tião.

Em entrevista ao Metrópoles, Nara reconhece nos incentivos públicos, de acordo com ela implementados durante o governo Lula, o fator impulsionador da criação e do mercado nacionais. “Com mais investimentos e, naturalmente, mais projetos sendo feitos, obtemos cada vez mais reconhecimento internacional”, afirma a cineasta.

O circuito de animação francês também lembrou nomes importantes para a linha evolutiva da criação brasileira, entre eles: Chico Liberato, Marcos Magalhães, Maurício de Sousa, Walbercy Ribas, Otto Guerra, Rosana Urbes, Luiz Bolognesi e Alê Abreu. “Acho que quem trabalha com animação no Brasil tem que ter muita garra e persistência. Os projetos que não conseguem financiamento ou que conseguem pouco, com muito amor e dedicação da equipe alcançam resultados incríveis, como é o caso de O Menino e o Mundo, de Alê Abreu”, conclui Nara.

Animação Brasileira – 100 filmes Essenciais
A Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) aproveitou a homenagem ao Brasil em Annecy 2018 para lançar sua coleção das 100 melhores produções nacionais do gênero. Intitulada Animação Brasileira – 100 filmes Essenciais, a obra, fruto da parceria com o Canal Brasil e a editora Letramento, reúne as principais produções brasileiras de todos os tempos.

“Há pouca publicação sobre a técnica no Brasil e nenhuma havia reunido análises críticas antes. Este formato tem uma história rica, mas pouco conhecida, especialmente no campo do curta-metragem”, considerou o presidente da Abraccine e um dos organizadores do livro, Paulo Henrique Silva.

No livro, cada filme ganhou um ensaio escrito por um autor diferente, não só críticos, mas também professores e estudiosos do país. Não foi uma tarefa fácil elencar as melhores produções. De acordo com Silva, os autores se basearam em uma pré-lista da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA). “Assistimos a todos para poder escolher os 100 melhores”, conta.

Com 20 ensaios históricos, a lista da Abraccine delineia a linha evolutiva da animação brasileira. Ao longo das páginas, vê-se desde o esforço de pioneiros até a consolidação e filmes premiados nos principais festivais do mundo. Sem esquecer do longo caminho pelo ciclo do super 8, dos trabalhos experimentais e da relação com a publicidade.

Dirigido pela dupla Pedro Prado e Rodrigo Castellari, o curta-metragem Cem Anos em Cem Segundos foi criado pela F/Nazca Saatchi & Saatchi para promover a animação brasileira em território internacional. O vídeo foi um dos destaques das festividades em Annecy. Confira:

 

Na TV mundial
Fora do circuito de festivais, a televisão é outro espaço em que as animações brasileiras têm grande prestígio. Atualmente, três dos desenhos mais aclamados por crianças de todas as idades, em diversos países do mundo, são criações tupiniquins: Irmão do Jorel, O Show da Luna e Peixonauta.

A série animada Irmão do Jorel (2014), criada por Juliano Enrico e Daniel Furlan, é um dos sucessos do Cartoon Network. Com uma mistura de aventuras absurdas, referências nostálgicas, conflitos humanos universais e humor para todas as idades, ela conquistou um público diverso e chega à sua terceira temporada em 2018. Outra sensação é O Show da Luna. Criada por Célia Catunda e Kiko Mistrorigo, a animação foi parar em mais de 70 países, virou musical e foi licenciado para mais de 30 empresas.

Lançado nas telinhas, Peixonauta foi vitorioso também nas salas de cinema. Agente da Organização Secreta para Total Recuperação Ambiental (O.S.T.R.A.), o herói engajado nas causas do meio ambiente ficou conhecido como caso de sucesso, entre 2009 e 2010, ao se tornar protagonista da primeira série de animação infantil da TV brasileira, no Discovery Kids.

Mulheres animadoras e a superação em um mercado machista
As mulheres só conseguiram ingressar na centenária animação no ano 2000. Apesar de estarem há menos de duas décadas no circuito, as cineastas têm tido papel de destaque no Brasil. Prova disso é a diretora Rosana Urbes, primeira brasileira a vencer a mostra competitiva do Festival Internacional de Annecy, com o curta-metragem Guida (2015).

Com oito anos de experiência nos estúdios da Disney e créditos em departamentos de animação de trabalhos como Tarzan, Mulan, Encantada e Asterix, Rosana teve dúvidas se teria sucesso ao arriscar-se no autoral. Para ela, as mulheres estão condicionadas a seguir o imaginário masculino em vez de apostar em temas que exigem uma sensibilidade própria.

“Eu demorei muito para contar a história dessa mulher de 75 anos, porque eu me questionava se isso era assunto para um filme. Se era isso o que as pessoas queriam assistir, pois à minha volta tinham os rapazes com outras linguagens, pensando em super-heróis”, lembra.

Mesmo se vendo por diversas vezes como a única mulher em uma equipe de cinema de animação, a criadora de Guida acredita estarmos no caminho para o reconhecimento do papel feminino. “A gente está começando a reconhecer a ferida e tratar. Tem menos animadoras, mas isso vem da maneira de como fomos criadas desde a nossa infância. Foram 500 anos queimando mulheres na fogueira e isso cria um medo no subconsciente. Nós herdamos a doença da opressão ao feminino, somos a geração que vai mudar essa história”, pontua.

Parte da nova geração de mulheres animadoras citada por Rosana, Nara Normande ressalta a importância de estar alerta para que as mulheres ocupem mais espaços. “Não podemos fingir que não existe desigualdade, não dá para ficar de olhos fechados e fingir que é normal ter menos mulher que homem com cargos importantes dentro do cinema. O caminho é longo e lento, mas com certeza conseguimos acelerar isso através de políticas de incentivo, cotas, discussões em encontros e rodas de diálogos”, conclui.

Renovação
O primeiro curta-metragem do jovem diretor Guilherme Gehr, Plantae (2017), antecipa um futuro otimista para a animação brasileira. O filme com temática ambiental foi premiado em 17 dos 35 festivais dos quais participou ao redor do mundo. Entre os destaques: Animamundi (Brasil), onde estreou, Milano Film Festival (Itália), Cine Eco (Portugal), Roundglass Samsara Film Festival (Índia), Environmental Film Festival in the Nation’s Capital (USA), Cinema Planeta (México), Short Shorts Filme Festival & Asia (Japão) e o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, o FICA 2018 (Brasil).

Nascido em Joinville, Santa Catarina, Guilherme conta que a inspiração para Plantae surgiu de um projeto feito especialmente para ele poder aprimorar sua técnica. “Mas as imagens se mostraram tão cativantes para mim que eu precisei explorá-las”, relembra o animador. De acordo com ele, transformar a ideia em produto não foi nada fácil.

A espera por um patrocínio ou por um edital que o selecione é terrível. Acho que muita gente desiste nesse momento. Como eu não me via fazendo outra coisa, decidi arriscar ainda mais. Pedi demissão de um projeto no qual estava trabalhando, e fiz o meu filme totalmente sem dinheiro. Eu tive essa sorte de assumir um compromisso comigo mesmo. Coloquei a minha obra, sem moldes alheios, para fora, e ela foi aceita"
Guilherme Gehr

Mesmo com as dificuldades da estreia, o catarinense vê o aumento do incentivo para conteúdo nacional na TV como um dos principais motivos para a boa fase no país. “Crescem o número de produções e a demanda por profissionais. Consequentemente isso traz muitos benefícios para a forma como o cinema nacional é visto aqui e no exterior. Ganhamos mais bagagem, novos aprendizados e oportunidades de trocar experiências”, completa.