Cannes: “The Dead Don’t Die”, de Jim Jarmusch

Comédia de zumbi provocará interesse apenas nos fãs já consolidados do diretor.

Festival de Cannes/DivulgaçãoFestival de Cannes/Divulgação

atualizado 25/05/2019 13:20

Aqueles familiarizados com o trabalho do diretor americano Jim Jarmusch sabem o que tem pela frente com seu novo filme, “The Dead Don’t Die”, crônica de uma pequena cidade que lentamente se vê invadida por zumbis. Sua aparente incursão em um novo gênero também não deve surpreender, já que ele Jarmusch deixou sua marca em filmes de assassinos e de vampiros. O que é verdadeiramente surpreendente sobre este novo filme é o quão típico ficou, pelo menos para ele. O público que é fã de filmes de zumbis provavelmente deixará o cinema frustrado, já que Jarmusch não mudou seu estilo para entrar no mundo dos zumbis. Em vez disso, ele transformou os zumbis para se adequarem ao seu próprio estilo.

Cliff Robertson (Bill Murray) é o xerife de Centerville, EUA, auxiliado por Ronnie Peterson (Adam Driver) e Mindy Morrison (Chloë Sevigny), seus adjuntos. Nada acontece na cidade além do sumiço ocasional de gado, geralmente na fazenda de Farmer Miller (Steve Buscemi). Um dia, em meio a notícias de que a escavação por petróleo nos pólos da Terra está alterando a rotação do planeta, efeitos estranhos começam a acontecer: aparelhos eletrônicos começam a pifar, o sol não se põe (pelo menos às 20h) e zumbis começam a sair do chão no cemitério local. Cabe ao departamento de polícia lidar com o surto.

Tom Waits é uma presença ilustre como o ermitão Bob. Tilda Swinton é a médica forense Zelda Winston, com sotaque escocês e espada de samurai, prolongando sua longa tentativa de viver todo tipo de ser imaginável nas telas. Selena Gomez é uma das integrantes de um trio hipster hospedado em um motel, Danny Glover e Caleb Landry Jones trabalham em uma loja de ferragens, a grande Carol Kane e RZA interpretam moradores locais, e Iggy Pop é uma presença-chave entre os zumbis.

Não acontece muita coisa nesta história, e muitos desses personagens já assistiram a filmes de zumbis e, portanto, conhecem as regras: não sejam mordidos, mirem na cabeça e tentem sobreviver. É uma decisão narrativa curiosa, mas que deixa tudo muito tranquilo e até sem-graça. O problema real parece estar no script. Os personagens aparecem e desaparecem sem motivo, um enredo inteiro envolvendo adolescentes se dissolve no ar e pelo menos um personagem está em um filme completamente diferente. Com uma faixa de Sturgill Simpson tocando, parece que Jarmusch teve uma inspiração instantânea e convidou todos os seus amigos para uma filmagem de fim de semana, onde eles se divertiram e inventaram coisas na hora.

É um filme interessante com divertidas piadas internas e uma prolongada discussão sobre o filme em si (sim, dentro do filme). Ele não irá além dos aficionados pelo gênero ou pelo diretor, no entanto, e faz seus pontos políticos com fortes marteladas, como quando um dos personagens aparece em um chapéu vermelho “Mantenha a América Branca de Novo”. Relacionando esse apocalipse com a mudança climática, no entanto, o diretor parece ter invertido a metáfora dos zumbis. Em vez de fazer uma reflexão sobre o consumismo, parece implicar que, agora que nosso planeta está condenado e o relógio final está correndo, todos nós somos condenados como mortos-vivos de qualquer maneira.

Avaliação: Regular

Últimas notícias