Cannes: “The Beguiled”, de Sofia Coppola
Um thriller vagaroso, sombrio e perverso sobre a batalha dos sexos
atualizado
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Que homem macho, solado de guerra com sangue quente pulsando em suas veias não gostaria de ser paparicado por sete mulheres dentro de uma mansão? O novo filme da diretora americana Sofia Coppola desmistifica um tanto o apelo de tal fantasia em um thriller não de choques histéricos, mas sim de perturbações precisas.
Na trama, ocorrida durante a Guerra Civil americana, o soldado desertor McBurney (Colin Farrell), ferido na perna, é encontrado por Amy (Oona Laurence), uma criança que o leva para encontrar abrigo, uma escola só para mulheres, escondida na mata, aonde Amy e outras seis mulheres passam seus dias tentando manter uma rotina sã enquanto esperam a guerra acabar. A diretora e matriarca é Miss Martha (Nicole Kidman), a única professora restante é Edwina (Kirsten Dunst) e as outras quatro alunas são a adolescente Alicia (Elle Fanning), e as crianças Jane (Angourie Rice), Marie (Addison Riecke) e Emily (Emma Howard). Nos dias que se seguem as mulheres debatem se devem entregar o soldado inimigo ao exército enquanto tratam suas feridas e travam uma disputa pela sua afeição.
A proposta de Coppola se formou como arriscada quando aceitou o projeto, pois “The Beguiled” já foi filmado, por Don Siegel, em 1971, estrelando Clint Eastwood. Antes disso já era um livro clássico do estilo western. Embora a versão anterior tenha fracassado na bilheteria, seu status cult crescente nunca deixou que fosse apagada. Resta a pergunta: o que a diretora viu nesta história que precisava ser atualizada?
Para parar de falar sobre a primeira versão (de 1971) é preciso responder, pelo menos superficialmente, esta pergunta. As duas versões são muito próximas em matéria dos fatos dos acontecimentos, exceto por um detalhe. Coppola preferiu remover a personagem escrava, Hallie, da trama. Imagino que ela se viu numa posição de perde-perde. Se mantivesse Hattie, seria escoriada por ser uma diretora branca retratando uma escrava negra. Se retirasse Hattie, seria escoriada por apagar a escravidão da história americana. Ela preferiu a segunda opção, substituindo Hattie por uma fala que indica que os escravos fugiram, e por uma direção de arte que evidencia o despreparo destas 7 mulheres para a manutenção de sua mansão.
A diferença entre as duas versões está nas personagens, pois em 2017, elas transcendem os seus arquétipos, interpretações, direção de arte e câmera tornando-as mais do que a soma de suas partes. Quatro delas planejam estabelecê-lo como suas: Amy, pelo mero fato de ter sido quem o encontrou e resgatou, Alicia, por estar no afloramento do desejo sexual, Edwina, por se ver presa no microcosmo que virou a escola e estar louca por uma razão para partir, e finalmente Martha, por ser a mais velha e não ter uma vida romântica realizada. Estes arquétipos podem facilmente virar caricaturas, mas o filme tem outros interesses.
“The Beguiled” se beneficia da atenção do espectador, pois o roteiro não tem interesse em bradar as vontades destas personagens, mas sim em reprimi-las. Num devido momento, elas não falam o que estão sentindo, preferem negar umas pras outras o que corre em suas cabeças. São os gestos, os olhares e os trajes que contam estas histórias (um pequeno exemplo disso ocorre quando um ombro é exposto durante um jantar). Assim como o dia-a-dia desta escola tenta insular as mulheres da selvageria da guerra que ocorre lá fora, também tenta abafar a crueldade dos desejos que carregam por dentro.
O destino de McBurney, vivido com deleite por Farrell é manipulado desde o começo. No primeiro momento, auto-confiante e sedutor, acha que o mundo é dele. Devagar, vai percebendo que as delicadas mãos que o nutrem de volta à vida também podem condená-lo à morte.
Avaliação: Excelente (5 estrelas)
