Cannes: Stars at Noon, de Claire Denis

Tão acostumada com filmes relativamente curtos com muito a dizer, diretora francesa faz o reverso: filme longo com pouco a dizer

atualizado

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Festival de Cannes/Divulgação
Star at Noon
1 de 1 Star at Noon - Foto: Festival de Cannes/Divulgação

Claire Denis é uma titã do cinema francês. Pouco apreciada pela seleção principal do Festival de Cannes, é com muita expectativa que sua primeira participação em mais de 30 anos, e ainda perto do final da Mostra, que ela exibi seu mais novo filme. Em mais de 40 anos de carreira ela foi moldando suas narrativas, plenas de temas, acontecimentos e emoções, contadas sem aparentar pressa ou aceleração, sempre em menos de duas horas. Desta vez, com quase três horas, ela criou uma personagem memorável que, infelizmente, não tem tanto a fazer.

Trish (Margaret Qualley) é uma americana na Nicaragua. Talvez seja apenas isso o possível a se saber sobre ela. Vagando sozinha pelas ruas de Managua. Ela parece realmente estar tentando vender pautas jornalísticas–conversando com um editor americano por Zoom, desenvolvendo fontes e contatos locais–mas ninguém está interessado em seu trabalho há tempos, por isso havemos de desconfiar que nem ela acredita no que está vendendo. Pelo menos no mundo escrito. Ela é bem mais sucedida em vender seu corpo, trocando sexo por dinheiro com um militar local.

“Stars at Noon” é um dos poucos filmes do Festival que incorporaram a pandemia de Covid ao seu roteiro. Apesar de poder andar livremente, Trish está no meio de um país parado e sem recursos, constantemente postergando uma eleição que já deveria ter acontecido. Trish é uma camaleoa, apesar de gringa, tentando viver como uma local. A única vantagem que sua pele clara e olhos verdes oferece é poder entrar em hotéis de luxo, aonde ela as vezes finge ser uma hóspede para filar uma refeição. Também roubar pequenos shampoos e até papel higiênico dos quartos de seus clientes. Um deles é Daniel (Joe Alwyn).

Daniel é britânico, e para um britânico estar na Nicaragua, bem, motivos escusos são os primeiros a aparecer. Ele conhece Trish no bar de seu hotel, e troca sexo por dinheiro com ela. Talvez seja verdade que ele esteja lá trabalhando para uma empresa petrolífera, com esposa e filha ainda na Inglaterra, mas aí por que ele teria uma arma escondida no banheiro? Trish e Daniel talvez tenham algo em comum, e com um desejo físico estabelecido entre eles, resolvem ficar juntos para evadir os agentes e policiais que começam a procurar por Daniel.

Assistir “Stars at Noon” lhe faz sentir presente nesta aura de calor, suor e pele. Está aí a expertise de Denis em contar esta história: seu ambiente. Enquanto todos os thrillers do passado envolvem um homem fugindo com uma mulher em perigo, a troca de gêneros é muito bem-vinda. Ao mesmo tempo, são tantos os mistérios que o roteiro quer manter que ele acaba dependendo demais em manter uma vibe do que manter o espectador engajado.

O sexo e a sensualidade são um ponto atraente do marketing do filme, e isso ele entrega. Em quartos luxuosos, em espeluncas e por onde mais passam, o perigo e o estrangeiro parece fomentar a atração entre eles. Ou talvez seja só o suor constante e a adrenalina de correr perigo. Quando o cerco aperta, nem os clientes poderosos de Trish podem ajudá-la e talvez seja por isso que ela entrega seu destino a Daniel–não importa o quanto ela conheça o país, ela não é de lá. Até o agente americano, da CIA ou de uma multinacional (Benny Safdie), que aparece para ajudá-los sabe disso-e rouba a cena.

Existe um filme melhor, mais curto a ser extraído do que foi apresentado no Festival, um que reforce tanto o thriller paranóico quanto o erótico que aqui se enxerga.

Avaliação: Bom (3 estrelas)

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