Cannes: “Nelyubov”, de Andrey Zvyagintsev
Um casal russo em processo de separação briga constantemente sobre o que fazer com o filho, numa Rússia cada dia mais indiferente à seu povo
atualizado
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Um casal russo, Zhenya (Maryana Spivak) and Boris (Alexey Rozin), está em vias de separação. Enquanto ainda habitam o mesmo apartamento com seu filho pequeno, Anton (Andris Keishs), pai e mãe já namoram outras pessoas, em busca de tocarem uma nova vida. O único empecilho é o próprio menino, que todos os dois veem como um fardo cujo futuro é o estopim de brigas ferozes. Um dia, a caminho da escola, o menino simplesmente desaparece, não se sabe por meio de um acidente, de um rapto ou por simples vontade própria, visto que ele sempre ouviu o teor das brigas sobre ele.
De repente desesperados, Zhenya e Boris saem em busca do filho, com a ajuda da polícia e de uma rede de voluntários locais prontos para vasculhar os bosques próximos. Com planos longos e desconfortáveis, fotografia gelada e fascinante, o diretor Andrey Zvyagintsev mergulha um espectador num universo quase que apocalíptico, aonde os jornais e programas de rádio retratam um mundo prestes a explodir, as buscas percorrem prédios decrépitos e abandonados, e os personagens se afogam em um mar de recriminações e rancor.
Continuo um pouco atônito que Zvyagintsev consiga fazer seus filmes na Rússia, contando ainda com dinheiro estatal. Cada sequencia, cada plano, cada imagem carrega em si críticas à sociedade atual com a mais fina das camadas alegóricas. “Leviatã” foi menos discreto ainda do que este novo filme, e atingiu relevância cultural em festivais e premiações mundo afora, trazendo atenção ao que há de podre no reino de Vladimir Putin. (“Leviatã”, apesar de tudo, é um filme engraçadíssimo, o que serviria com válvula de escape, mas “Nelyubov”, quer uma crítica mais extrema, eliminando humor.)
A crítica de que seja no estilo “misery porn”, ou pornografia da miséria, é de certa forma cabível. Se trata de um termo pejorativo para filmes em que os personagens principais sofrem sem parar, pela duração inteira, sem alívio. Uma das imagens mais assombrosas com certeza é o rosto cheio de lágrimas de Anton, que aparece de surpresa após uma das incontáveis brigas de seus pais. Porém, o tom investigativo, usual de um procedural, permite que o espectador mantenha a esperança de um desfecho até o final. Talvez, talvez, apareça uma luz no fim deste túnel.
Zvyagintsev é mais ambicioso que isto, e a tradução do título, “Loveless”, ou “Sem Amor”. Não se trata aqui de um filme sobre uma criança desaparecida, mas sim uma metáfora sobre a indiferença de líderes políticos para com seu povo perante seus próprios egos e picuinhas. É neste nível que o filme transcende a trama: ele vira uma crítica política e um aviso sobre o futuro. À mercê das decisões dos poderosos, o povo se ferra. Pode ser que estes mesmos líderes sintam pelo público, como os pais de Anton sofrem com seu sumiço, mas aí será tarde demais.
Avaliação: Ótimo (4 estrelas)
