Cannes: “Lux Æterna”, de Gaspar Noé

Filme experimental não firma o propósito de sua existência, porém anima com montagem, fotografia e trilha sonora incríveis.

atualizado 28/02/2020 16:07

Festiva de Cannes/Divulgação

Gaspar Noé chega em Cannes toda vez que lança um filme para brincar. Sempre com raras chances de ganhar alguma coisa, vem despreocupado e provocador. Gosta de dizer que todos odeiam seus filmes, e que suas imagens são repugnantes. O sucesso de “Climax“, no ano passado, foi um marco em sua auto-percepção e um fenômeno inédito em sua vida. O que importa é ser visto.

Existe, talvez a seu contra-gosto, um primor técnico e uma exuberância visual e auditiva em seus filmes que sempre os elevam a algo essencial no cinema. Não importa se o filme é bom ou ruim, a sua destreza com a linguagem cinematográfica é sempre intrigante. Ao assistir “Lux Æterna” após a meia noite em uma sala de cinema para mais de 2 mil pessoas, sentimos um verdadeiro ‘tour-de-force’. É difícil até descrever o que é esta obra. Um média-metragem? Uma propaganda para a marca Yves Saint Laurent, que bancou a produção?

Aqui, o argentino une duas musas do cinema francês, Beatrice Dalle e Charlotte Gainsbourg, interpretando versões de si mesmas que estão participando de uma filmagem em um casarão. O clima é caótico, e Noé aproveita todos os clichês de confusões em sets de filmagens para popular sua história: a diretora cheia de dúvidas, a musa artística tentando entrar em seu personagem, um pseudo-roteirista tentando vender sua ideia boba de roteiro, as crises de vestuário e figurino, intrigas amorosas…

A equipe está prestes a filmar uma jornada ao inferno. Três mulheres, usando lindos vestidos (embora uma delas esteja com os seios de fora), estão amarradas em fogueiras, e serão queimadas vivas, como bruxas. O tema da perseguição à mulher se estende à produção, onde um produtor (Yannick Bono) e o diretor de fotografia (Loup Brankovic) querem demitir a diretora do filme. Esta, por sua vez, perdeu controle de sua sanidade e tudo o que está na tela, incluindo o filme que ela está fazendo, parecem se fundir com a loucura que ela está sentindo.

Ouso comparar a obra de Noé com outro “enfant terrible” francês, Jean-Luc Godard. São sensibilidades completamente diferentes, separadas por abismos em gostos, em política, em gerações, mas são interesses similares em explorar a possibilidade cinematográfica. Não é possível saber, ainda, aonde este comercial de 50 minutos de duração passará (o circuito comercial em salas não parece uma opção), mas Noé o fez somente para o cinema, aonde a experiência sensorial funciona. Este sim, é um pedaço de arte que não funciona na tela de um celular.

Avaliação: Bom (3 estrelas)

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