Cannes: “Le Redoutable”, de Michel Hazanavicius
Filme sobre o diretor Jean-Luc Godard é divertido, embora nada elogioso desta figura controversa
atualizado
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A França, um dos berços culturais da civilização ocidental, leva seus mitos artísticos a sério. Um dos maiores da atualidade é Jean-Luc Godard, diretor de cinema já idolatrado no primeiro filme, “Acossado”, fundador da Nouvelle Vague. Hoje com 87 anos, permanece uma esfinge. Recluso e antipático à imprensa, Godard permanece sempre encoberto por uma nuvem de dúvidas: quais de suas ações seriam do próprio homem, em vez do personagem que ele mesmo criou sobre si mesmo perante a sociedade?
“Le Redoutable” não é uma filme-bio sobre a vida de Godard, mas sim um relato de um ano muito particular de sua vida, após o lançamento de “La Chinoise”, filme que dirigiu em 1967. Baseado no livro de sua ex-esposa, Anne Wiazemsky (Stacy Martin), o filme mostra um Godard (Louis Garrel) atordoado pelas críticas negativas que seu filme recebeu, o casamento em vias de desmanchar, e sua missão egoísta de criar um cinema “revolucionário.
O final dos anos 60 foram uma época de transformação social, especialmente na Europa, aonde nasceram vários dos movimentos estudantis da época. Um dos truques acertados do diretor e roteirista é essa temporalidade, pois Godard não é mais tão jovem e anônimo quantos os alunos revolucionários e nem tão consolidados como um tesouro nacional que não tenha de se preocupar com o próprio sucesso. Godard, portanto, está confuso. Algo inédito nos retratos de sua imagem.
O que impede “Le Redoutable” de ser uma obra-prima é que lhe falta a ambição de fazer algo realmente profundo. Mais do que um estudo de personagem, um retrato do esforço da criação artística ou um filme de época, o filme é uma comédia. Leve e divertida. Na verdade o filme toca em todos estes temas mencionados, mas sempre subvertendo qualquer intenção séria com a comédia. Além do roteiro, a estética também é cômica. Constantemente referenciando trabalhos clássicos do cineasta, no uso de legendas, na montagem e na mise-en-scéne, Hazanavicius usa a meta-linguagem mais como paródia—que também é um elemento cômico—do que como homenagem.
A força do filme está nos atores principais, pois se o espectador sabe que “La Chinoise” não marcou o fim da carreira de Godard, o desenrolar do casamento com Wiazemsky é a única vertente da trama que não persiste na comédia. Enquanto o espectador está sempre rindo de Godard, como o filme pretende, sua paciência vai se esgotando em relação ao tratamento do personagem com a própria esposa. O filme sustenta que Godard é o pior inimigo dele mesmo, e enquanto as risadas são frequentes ao ver ele se atrapalhar em sua política e em suas filmagens, em relação ao casamento ele deixa de ser engraçado. Anne Wiazemsky, e Stacy Martin, sua intérprete, são as verdadeiras heroínas do filme.
É bem possível que os filmes sobre Godard que virão após sua morte serão demasiadamente sisudos e contemplativos. “Le Redoutable” é o oposto, e por isso é refrescante.
Avaliação: Bom (3 estrelas)
