Cannes: “Family Romance, LLC”, de Werner Herzog

Herzog explora os laços que unem pessoas, e o que acontece quando estes são corporatizados.

atualizado 28/02/2020 18:48

Festival de Cannes/Divulgação

Começamos em uma cena idílica num parque, onde um pai Yuichi (Yuichi Ishii) tenta reconectar com sua filha adolescente, Mahiro (Mahiro Tanimoto), que não teve esta presença durante sua vida. É um tanto desconfortável, pois nenhum dos dois sabe o que falar para apaziguar um sentimento de desconfiança. Yuichi peca pela sinceridade, e expressa arrependimento de ter abandonado sua família. Os dois ainda precisarão de algumas sessões extras para se familiarizarem.

Estas sessões extras custarão dinheiro à mãe, pois em outra cena vemos Yuichi relatando a ela suas impressões sobre a jovem Mahiro, seus medose suas aspirações. Yuichi é, na verdade, um empresário que as pessoas podem “alugar” para que interprete um membro da família ausente. Preocupada com o vazio na vida de Mahiro, sua mãe o contratou para fingir que é seu pai, e preencher o buraco. Baseado em uma empresa real, que foi retratada em um artigo fascinante no ano passado, “Family Romance” explora as necessidades de afeto do ser humano.

Vemos Yuichi trabalhar com vários cenários: como um funcionário que precisa pedir perdão e ser humilhado por um chefe rígido, fingir ser um paparazzo atrás de uma cliente que quer se sentir famosa, re-encenar um sorteio lotérico para que alguém reviva a emoção de ser uma ganhadora, e até fingir ser um corpo, dentro de um caixão, em um enterro que necessitaria ser de caixão fechado caso ocorresse com o corpo de verdade. (Esta cena, aliás oferece o momento mais Herzogiano do filme, sobre o silêncio que se experimenta após a vida.)

Herzog extrapola em alguns momentos para refletir sobre temas passados, e isso fica muito aparente na cena em que Yuichi vai para um hotel de robôs, onde nenhum dos atendentes é um ser humano. Em um aquário, um peixinho robô nada e nada, sua existência não tão distante daquela do que seria um peixe de verdade, na mesma situação.

O elo emocional da história realmente vem do caso de Mahiro, e é aqui que surge a pergunta mais intrigante: se a adolescente acredita que Yuichi é seu verdadeiro pai, como será que funciona o encerramento do contrato? O que poderia ser quase a base inteira do filme tem um desfecho até simplório, pois Herzog não quer aqui fazer um filme agonizante, e sim explorar a condição humana numa quase-fábula.

A falta de orçamento e o que deve ter sido um cronograma de filmagem bem apertado, aliado à implícita dificuldade de comunicação devido ao grau de diferença da língua japonesa com as línguas européias que Herzog sabe falar, conspiração para manter “Family Romance, LLC” alguns patamares abaixo do que o diretor poderia realizar com sua ideia de história. A popularidade do artigo que revelou a prática de aluguel de familiares e as possibilidades cinematográficas que ela implica provavelmente fizeram com que ele aproveitasse uma oportunidade básica para ser o primeiro a explorar o tema em seu currículo.

Avaliação: Regular (2 estrelas)

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