Cannes: “Esterno Notte”, de Marco Bellocchio
Mini-série de 5 horas é exploração sobre um dos maiores assassinatos políticos do século 20.
atualizado
Compartilhar notícia

Pois é, o apelo da televisão está no auge, pegando até diretores de cinema trabalhando desde a década de 60. Marco Bellocchio é um ancião do cinema neorrealista, e correspondeu até com diretores brasileiros do Cinema Novo, como Glauber Rocha. Sua nova obra, exibida hors concours aqui no Festival é sim televisão — episódica, compacta e formatada — mas é filmada como se fosse cinemão. Munidos de grandes orçamentos e de épicos tempos de duração para suas obras, diretores como ele fazem um banquete.
Interpretado e re-interpretado no cinema, o sequestro e assassinato do primeiro-ministro italiano Aldo Moro (Fabrizio Gifuni) na década de 70, pelo grupo terrorista Brigadas Vermelhas, foi um evento que mexeu com muito da estrutura política italiana, para se dizer o mínimo. Por isso, para se fazer um filme que passe da superfície, é sempre necessário se escolher uma perspectiva única e retratá-la. Com mais de 5 horas de série na mão, Bellocchio pôde agora explorar o mesmo evento de perspectivas diferentes e ainda colocá-las lado a lado em momentos distintos.
A ausência de Moro é vivida por XX grupos: sua família, especialmente a esposa Eleonora (Margherita Buy), seu partido político, os Cristãos Democratas, o Vaticano, especialmente Papa Paolo VI (Toni Servillo) e finalmente, dois membros das Brigadas Vermelhas, Valerio Morucci (Gabriel Montesi) e Adriana Faranda (Daniela Marra). Cada um tem seu próprio jogo de interesses e conflitos, além de um histórico com o próprio Moro, e é aí que o material é interessante aos dias de hoje.
O filme apresenta esforços de Aldo Moro em formar uma coalização entre seu partido e o Partido Comunista da Itália, que estava fora do governo desde a 2a Guerra. As Brigadas Vermelhas o raptaram para impedir qualquer esforço de inclusão dos comunistas na política italiana. Tais esforços seriam uma traição ao proletariado. Praticamente desnecessário mencionar que vários políticos do próprio partido de Moro também eram contra o esforço.
A tragédia de um líder político que buscava unir ideologias disparates em sua coalização não deve ser perdida nos dias de hoje. Vítima de violência ideológica, Moro passou 55 dias em cativeiro, enviando cartas a conhecidos, incluindo o Papa, que buscava negociar sua soltura, mas, no fim das contas, foi encontrado morto a tiros no porta-malas de um Renault. Considerando o que seu acordo geraria, uma união entre conservadores e comunistas, o debate dos personagens do filme não é apenas sobre como salvar Moro, mas sobre se ele deveria ser salvado.
Pegando leve no número de sequencias de ação (com exceção do rapto de Moro, onde quase toda sua equipe de seguranças é morta), Bellocchio está interessado nas conversas e nas questões filosóficas do episódio. Inúmeros personagens não confrontam a violência, mas sim as suas angústias internas, questões de lealdade e justiça, política e divindade. São questões universais, e a verdade da violência ocorrida na Itália serve como espelho do que ainda pode acontecer hoje em dia.
Avaliação: Ótimo (4 estrelas)