Carnaval 2020: saiba quem faz a festa de rua no Distrito Federal

O Metrópoles conversou com alguns produtores carnavalescos, para entender a história por trás dos principais bloquinhos do DF

atualizado 23/02/2020 6:57

A festa de rua, democrática e repleta de diversidade, é a principal marca do Carnaval de Brasília. Neste ano, a estimativa da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec) é que os 180 blocos cadastrados (confira a programação completa)arrastem cerca de 1,2 milhão de foliões em todo o Distrito Federal.

Os números expressivos comprovam: o quadrado tornou-se, sim, um dos polos da folia do país. Mas o que muita gente desconhece são os desafios superados por homens e mulheres que se dedicam a levar alegria e diversão, ao menos por cinco dias, aos brasilienses.

O Metrópoles conversou com produtores para entender a história por trás dos principais bloquinhos do DF. Do Bloco das Montadas, atração voltada ao público LGBT, passando pelo Divinas Tetas, que há cinco anos encanta o público com repertório de ícones tropicalistas, até o Carnaflow – festa feita por e para os jovens foliões de Ceilândia sem nenhum apoio do setor público.

Divulgação
O Bloco das Montadas foi idealizado pelo coletivo Distrito Drag, em 2018
Bloco das Montadas

Criado como uma alternativa de festa para a comunidade LGBT, o Bloco das Montadas conquistou rapidamente lugar de destaque na programação carnavalesca de Brasília. Organizado pelo Distrito Drag, coletivo formado por 10 artistas da cidade, a folia acontece no domingo (23/02/2020), no Setor Bancário Norte, a partir das 14h.

Representar a diversidade e tornar o Carnaval um ambiente de liberdade e respeito é uma das missões do Bloco das Montadas. “A nossa marca é conseguir articular a diversão e a educação para o não-preconceito de forma lúdica”, ressalta Ruth Venceremos, de 36 anos, uma das integrantes do Distrito Drag que conta, ainda, com Abgail, Afrodite Starligth, Amenda Nudes, Kelly Queen, Maria Rojava, Mary Gambiarra, Mozilla Firefox, Nixx e Raykka Rica.

Apesar de celebrar a cultura LGBT, Ruth faz questão de ressaltar que todos os tipos de público são bem-vindos na festa. Prova disso, é o aumento do número de foliões do bloquinho triplicar desde a estreia, em 2018. “No primeiro ano, esperávamos e nos programamos para 500 pessoas, foram 15 mil. Em 2019, já estávamos super felizes e desejávamos apenas repetir o feito, recebemos 45 mil. Ontem à noite chorei revendo as fotos”, conta.

O projeto carnavalesco dará início as comemorações do aniversário da capital federal com o tema: Brasília, Uma Cidade Montada. Entre as atrações está a banda carioca Candy Bloco, liderada pelo cantor Beni Falcone. Nascido e criado no Rio, o artista conduz o bloquinho no litoral há três anos. “O Candy dá uma contribuição singular para a pauta LGBT. Acredito que nós temos essa mesma percepção de agregar”, elogia Ruth.

Thaís Mallon/Divulgação
O Bloco das Divinas Tetas estreou em 2016, em um pequeno palco no Setor Bancário Sul para um público de 10 mil pessoas
Bloco das Divinas Tetas

Bloco tipicamente brasileiro, e brasiliense, o Divinas Tetas chega à sua quinta edição para carnavalizar o quadrado. Fundado em 2016 pelos amigos Adolfo Neto, Aloizio Michael, Samyr Aissami e Thiago Delimacruz, o grupo embala os foliões ao som de sucessos de ícones do tropicalismo como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé e Os Mutantes.

“Este ano, a gente espera fazer uma festa bem linda e, como sempre, bem segura para quem for assistir. É muito bonito para nós que estamos em cima do palco, ver pessoas de todas as idades, credos e gêneros. Todo mundo curtindo numa boa, e juntos”, ressalta Adolfo Neto.

Além dos fundadores, o Divinas Tetas levará para o palco uma banda formada por 10 músicos:  Rudá Carvalho (teclado/voz), Guilherme Maranhão (baterista), Lucas, o Tufinha (percussão) , Thiago Bezerra (percussão/voz), Mariano Toniatti (percussão) , Caio Lívio (percussão), Raíza Andrade (trompete), Chico Oswald (saxofonista), Isadora Pina (saxofonista/vocal) e Liliane Santos (trombonista).

Burocracia

Apesar do sucesso da festa, que em 2019 reuniu 20 mil pessoas – nas contas da Secretaria de Segurança Pública do DF–, Neto ressalta as dificuldades para conseguir colocar um bloco na rua. “Nós contamos com o apoio do FAC, mas ainda é uma burocracia danada. A secretaria ainda não consegue operar o trâmite desse edital, desses projetos todos, com fluidez, com prazos”, critica o músico, que só na última quarta-feira (19/02/2020), assinou o termo de ajuste do documento lançado em dezembro de 2019.

Divulgação
O Carnaflow surgiu como uma alternativa dos jovens e moradores de Ceilândia para a falta de investimento público em ações fora do Plano Piloto
Carnaflow

O movimento Rede Urbana de Ações Socioculturais (Ruas) se mobiliza, anualmente, para que os moradores de Ceilândia não sejam obrigados a sair da cidade para brincar com confetes e serpentinas. Neste sábado (22/02/2020), o Carnaflow vai para o seu quarto ano, na Praça do Cidadão (Ceilândia).  Às 10h, o Carna Kids se dedica à criançada, com brinquedos infláveis, pintura de rosto e pipoca gratuita. A partir das 16h, a festa é dos adultos.

No palco, DJs locais vão comandar as picapes e apresentar um set que vai do funk ao reggae. “Nós criamos o Carnaflow com o objetivo de descentralizar o Carnaval. Mostrar que na periferia também tem folia e muita cultura”, explica Antonio de Pádua, presidente da Ruas.

Ao anunciar a programação do Carnaval 2020 do DF, o secretário de cultura Bartolomeu Rodrigues justificou a ausência de investimento público nas festas realizadas fora do Plano Piloto, pela preferência dos foliões por eventos no centro da capital federal. O presidente do movimento discorda. “Quem prefere sair da sua cidade para ficar por uma ou duas horas dentro de um transporte público para chegar numa festa? E muitas vezes nem ter como voltar? Se existissem opções, esses jovens curtiriam em suas cidades”, garante Antônio.

Hugo Barreto/Metrópoles
O Pacotão é um dos mais tradicionais blocos de Brasília, os foliões, assim como Leonardo Tribst (foto), abusam das críticas políticas e sociais nas fantasias
Blocos tradicionais

O que seria do Carnaval local sem os populares e tradicionais blocos como Raparigueiros, Galinho de Brasília, Baratinha, Menino de Ceilândia, Mamãe Taguá, Asé Dudu e os mais antigos, Baratona, com 39 anos de desfiles, e o Pacotão, que leva sátiras bem-humoradas do cenário político para as ruas há 38 anos.

Com os recursos reduzidos, em 2020 os blocos vão desfilar em apenas um dia de folia: no domingo (23/02/2020), Raparigueiros (Eixo Monumental, ao lado da Torre de TV), das 17h à 0h, e Menino de Ceilândia (CNM1, Ceilândia Centro), das 15h às 22h; na segunda-feira (24/02/2020), a Baratona (Eixo Monumental, ao lado da Torre de TV), das 16h às 23h, e Asé Dudu, no Taguapark (Taguatinga). Mamãe Tagua, na QNL 1 (Taguatinga); e terça-feira (25/02/2020), o Pacotão (concentração na 302/303 Norte), das 14h às 20h.

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