Cannes: Soudain, de Ryusuke Hamaguchi
Diretor ganhador do Oscar apresenta um filme com muita conversa, mas pouca catarse.

Existe muito a elogiar no filme novo do diretor japonês ganhador do Oscar Ryusuke Hamaguchi, especialmente quando consideramos que seu filme mais premiado, Drive My Car, é sobre um ator e diretor de teatro que vive o luto de ter se tornado viúvo. Apesar de cercado por mulheres, a sensibilidade do filme é sempre em torno dele, que tem uma posição de autoridade na trama. Contratado para dirigir um peça em Hiroshima, sua motorista e seu elenco são subordinados. Neste novo filme, Hamaguchi converte sua sensibilidade para algo plenamente feminino, preenchendo o roteiro de papéis principais só com mulheres.
Marie-Lou (Virginie Efira) é uma mulher francesa moderna, bem resolvida, e idealista, que administra um lar para pessoas idosas que já não conseguem se virar sozinhas. Mari (Tao Okamoto), é uma diretora teatral que está passando uma temporada em Paris com uma peça sobre tratamento psicológico. As duas se conhecem quando Marie-Lou observa um menino japonês perdido na rua. Ela logo o ajuda a encontrar seu avô, que é ator da peça de Mari. Autista, o menino Tomoki (Kodai Kurosaki) participa do elenco quando quer. Do encontro destas duas mulheres saem faíscas, nunca românticas, mas sim de uma busca por um entendimento da vida ajudará as duas.
Marie-Lou sempre corre o risco de ser engolida pelo trabalho, pois o lar vive crise após crise. Além das finanças em apuros, Marie-Lou está tentando implementar uma filosofia de tratamento chamada “humanitude” para melhorar a vida dos pacientes. O problema é que tal método demanda muito mais tempo da equipe de enfermagem, que já é menor do que o necessário para o volume de pacientes e o nível salarial. Com mais de 3 horas, o filme entra em todos os aspectos do negócio, com muitas cenas entre a equipe de atendentes e seus pacientes, assim como as famílias destes. Passa muito tempo também nos confrontos, personalizados pela enfermeira veterana Sophie (Marie Bunel).
O centro do filme, porém, é realmente a amizade entre as duas Maries. A francesa, aliás, fala japonês, e até acompanha a nova amiga em uma viagem para Kyoto. Os diálogos misturam francês, japonês e inglês e ocupam horas do filme. Hamaguchi sabe controlar o nível de suas revelações. A mais importante, ainda no começo, é que Mari está nos últimos estágios de um câncer terminal. Sua troca de ideias com Marie-Lou, então, merecem ser percebidas não só como conversa agradável, mas também como uma tentativa de último registro de suas crenças e aprendizados.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles EntretenimentoPara alguns, esta ideia será suficiente para justificar uma sequencia onde Mari puxa um quadro de sala-de-aula e pega uma caneta para diagramar uma esquemática do capitalismo e seus vícios. Na verdade, a sequencia emerge como um dos vícios do filme, aonde discurso é mais usado do que ação. É o meio da noite, e as duas estão em uma sala do lar para idosos, numa conversa que dura a noite inteira. Muitas destas conversas aparecem assim, entre almas que combinam, impedindo que o filme atinga a catarse emocional que merece, mesmo como uma das personagens centrais a beira da morte. A metáfora central do filme é o cuidado com os outros, e o roteiro tem tanto cuidado com cada personagem que se enfraquece.
Avaliação: Regular (2 estrelas)
