Cannes: Moulin, de László Nemes
Filme sobre figura histórica é uma ode à resistência.

O diretor László Nemes é um fetichista do período entre, e incluindo, as duas guerras mundiais do século passado. Apesar de evitar filmar os conflitos bélicos diretamente, seus protagonistas sempre os tangenciam de maneira a ilustrar a confusão da guerra que fica à espreita, na marginália. Seu primeiro e melhor filme era sobre um prisioneiro num campo de concentração. O segundo envolvia uma moça da elite econômica tentando ganhar um emprego na loja que seus pais fundaram. Já o terceiro tinha um menino feito órfão pela guerra entrando numa nova família. Neste novo trabalho, Nemes mira a resistência francesa durante a ocupação alemã.
O ator francês Gilles Lellouche interpreta Jean Moulin, guerrilheiro que começa o filme literalmente caindo de para-quedas na França, retornando de um exílio em Londres com Charles de Gaulle. Fingindo ser um designer de interiores chamado Jean Martel, sua missão é se re-infiltrar na sociedade e entrar em contato com várias células da resistência para uní-las sob o comando do general de Gaulle. Um banquete de espionagem e subterfúgio, fotografado em película 35mm com muita sombra e clima noir.
A história de Moulin é bem conhecida na França, obviamente, mas nem tanto com espectadores do resto do mundo. Estes serão pegos de surpresa pelo fato que Moulin não consegue executar quase nada de sua missão antes de ser capturado pela Gestapo. Assim o filme deixa de ser uma obra sobre intriga e espionagem e começa a homenagear o senso heróico de Moulin em enfrentar a tortura nas mãos de Klaus Barbie (Lars Eidinger), o “açougueiro de Lyon”. No melhor diálogo entre os dois, Barbie (que nome para um nazista) finge ainda ter dúvidas se o prisioneiro é membro da resistência ou designer de interiores.
Ao roteirizar uma história real, o diretor não consegue, porém, criar uma dramaticidade que sustente um filme com mais de duas horas. Os dois personagens principais tem seus papéis. Barbie vai tentar arrancar informações de Moulin, e para isso vai usando métodos cada vez mais perversos. Moulin não vai entregar ninguém, e por isso seguirá sofrendo castigos cada vez mais pesados, até que…. bem, seu final não é de todo imprevisível. Não existe nisso, portanto, um arco de personagem ou uma mudança na narrativa.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles EntretenimentoEntre os trabalhos de Nemes, que já até ganhou o Oscar de filme estrangeiro, este será apreciado só por seu esforço técnico. O filme sequer se pergunta quem teria dedurado Moulin para a Gestapo, um mistério que toda a organização da resistência deve ter tentado descobrir. É de se imaginar que a resposta nunca foi encontrada. Moulin é uma homenagem prejudicada pelos fatos históricos.
Avaliação: Regular (2 estrelas)
