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Cannes: L´Inconnue, de Arthur Harari

Premissa genial de terror existencial morre na praia.

18/05/2026 18:38, atualizado 14/10/2026 18:32
Festival de Cannes/Divulgação
Cannes: L´Inconnue, de Arthur Harari

Alguns dizem que os jovens de hoje não se interessam por sexo. Por outro lado, o sexo está, mais do que nunca, reduzido a uma transação, negociado com indiferença nos aplicativos de paquera. A cena é uma rave colorida, cheia de energia e rebelião. David (Niels Schneider), um fotógrafo, está lá no meio, com amigos só que sozinho–vemos isto em seu olhar. Bem tarde na festa, uma mulher captura seu olhar. Ela parece decidida e, bem, ela é interpretada por Léa Seydoux, então David vai com ela para um quartinho nos fundos. A mulher não fala nada, só toma controle de David pra si, num ato sexual bizarro e explosivo. Fade to black.

David acorda no dia seguinte, um pouco atônito, mas em casa. A ressaca é braba, mas o que ele vê desafia a lógica: seu corpo agora é o corpo da mulher, Eva. O desespero inicial se torna uma busca. David/Eva deduz que trocou de corpo no ato sexual com a mulher. Por isso, o corpo dele está em algum lugar de Paris, com a alma dela. Não demora muito e David/Eva encontra seu velho corpo no meio da rua. Só que não é a mulher com quem ele transou que está lá dentro. É uma jovem mais confusa que ele, alguém que diz se chamar Malia. Parece que, no corpo de David, a alma maldosa transou de novo e trocou de novo.

A premissa é genial, não tem como negar. Só que o filme não sabe bem o que fazer com ela. David/Eva e Malia/David se juntam para tentar procurar o originário de tudo isso. Existe um pouco de comédia a ser minada desta parceria, afinal existe até um termo para comédias do gênero, “body swap”, aonde, geralmente, adultos trocam de corpos com crianças, quase sempre do mesmo sexo. Se tratando aqui de um drama adulto, porém, o diretor não evita questões entre os sexos. Pode até ser que existam dimensões trans no filme, ou talvez não, visto que a mudança de gênero dos personagens não é voluntária. Ou talvez a alegoria só comece após a troca, quando reconhecemos que uma alma masculina está habitando um corpo feminino e vice-versa.

Arthur Harari foi um dos roteiristas ganhadores do Oscar por Anatomia de uma Queda, filme que também venceu a Palma de Ouro e trata muito do conflito entre sexos. Um dos temas daquela história é justamente o que se pode saber e o que nunca saberemos. Já em L´Inconnue, o roteiro reforça o que o título diz, o lado desconhecido da trama. É um erro crasso, pois todas as ideias que o roteiro joga ao ar desaparecem, anuviadas. E o espectador fica com a sensação de tempo jogado fora.

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Avaliação: Ruim (1 estrela)

Cannes: L´Inconnue, de Arthur Harari