Quem escolhe a escola de seu filho? Ele ou você?

A criança deve participar da decisão, mas ela cabe aos pais, que devem avaliar se a instituição está alinhada com as expectativas da família

atualizado 28/03/2018 12:22

IStock

Acompanhe a cronologia dos acontecimentos:

O aluno reprova de ano. Mesmo assim, viaja em dezembro para a Disney (EUA). No ano seguinte, escolhe a escola na qual quer estudar. Em março, pede para sair do colégio em que acabou de entrar – afinal, está achando a nova escola um saco. O aluno muda de novo.

Já ouviu história parecida?

Acompanho casos assim há anos. Os pais, constrangidos, me perguntam: “Meu filho pode escolher a escola dele?”

Não, não pode.

Escolher uma escola é uma decisão profundamente importante que exige uma avaliação abrangente. É necessário saber se a instituição está alinhada com as expectativas da sua família, se é coerente com o perfil do seu filho, se é logisticamente viável para vocês… É uma escolha tomada por todos vocês, mas a palavra final é dos pais. Já falamos sobre os cuidados que devemos ter na hora de escolher o colégio dos pequenos nesse espaço.

Se a criança reprovou no ano passado, ela precisa perder o direito inclusive de escolher junto com você.

Mais do que perder o direito de opinar, você está ensinando, com atitudes, que existe uma relação direta entre o que fazemos e as consequências do que fazemos.

Voltando ao exemplo:

Reprovou? A viagem de férias NÃO PODE estar GARANTIDA.

Reprovou? Tudo não pode permanecer como antes – saídas, viagens, gadgets e presentes.

Do contrário, qual é a consequência daqui a 20 anos? Adultos que já querem ser diretores no primeiro emprego, carentes por elogios e incapazes de fazer esforços maiores para conquistar seu espaço. Eles “querem tudo sem esforço agora”.

A dúvida de uma família sobre o papel desempenhado pelo filho na escolha da escola reflete ausência de autoridade e revela uma confusão de papéis de pais e filhos. O resultado final é fatal: crianças e adolescentes sem estímulo para serem melhores. Serão “adultos ultrainteligentes, mas que não tiveram sorte na vida”.

O mago do marketing Philip Kotler definiu cinco papéis desempenhados por diferentes pessoas no processo de compra de um produto ou de um serviço. São eles:

  • Iniciador: é quem aponta a necessidade de se adquirir o produto ou serviço.
  • Influenciador: pessoa que leva informações ao grupo, que tem conhecimento do produtor/serviço, que pode apontar melhores modelos ou características do que deve ser adquirido.
  • Decisor: é a pessoa que toma a decisão final de compra. Que dá o ok para que a compra seja feita.
  • Comprador: é quem efetivamente faz a compra.
  • Usuário: quem desfruta do produto/serviço.

É preciso que os pais saibam colocar em cada uma dessas caixas acima os responsáveis corretos para desempenhar os respectivos papéis.

Vamos fazer esse exercício juntos?

  • Iniciador: a mãe e/ou o pai definem que é hora de colocar o filho na escola – ou que é preciso trocar de escola.
  • Influenciador: o filho tem aqui o seu papel principal. Ele pode opinar, falar de qual mais gosta, mencionar que os amiguinhos estão indo para a escola X, etc. Mas há também outros influenciadores – uma psicopedagoga, uma amiga que tenha filhos na mesma idade, etc.
  • Decisor: a mãe e/ou o pai deve ser o decisor sempre. Ainda que o filho influencie, a decisão é dos pais.
  • Comprador: a mãe e/ou pai – ou, eventualmente, avô/avó que ajude com as despesas.
  • Usuário: a criança.

Note: quando os papéis são deturpados e as crianças assumem papéis inadequados nesse diagrama, os pais passam aos filhos mensagens equivocadas.

O educador Içami Tiba complementa meu raciocínio: “O erro mais frequente na educação do filho é colocá-lo no topo da casa. O filho não pode ser a razão de viver de um casal. O filho é um dos elementos. O casal tem que deixá-lo, no máximo, no mesmo nível que eles. A sociedade pagará o preço quando alguém é educado achando-se o centro do universo”.

 

*Christiane Fernandes é pedagoga e psicopedagoga, especialista em dificuldades de aprendizagem pela Universidade de Brasília (UnB). É fundadora da Filhos – Educação e Aulas, empresa que atua na área de educação, oferecendo aulas particulares em casa há 13 anos. Possui ainda MBA em gestão empresarial com foco em estratégia pela Fundação Getulio Vargas.

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