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O asfaltamento na entrada da fazenda da deputada distrital Liliane Roriz (PTB), em Luziânia (GO), não foi bem digerido pelos vizinhos. Das seis pessoas ouvidas pela reportagem, proprietários e gerentes de lotes nas proximidades, todas acreditam que a parlamentar foi beneficiada, pois apenas o sítio dela passou por melhorias executadas pela empresa Eletro Hidro Ltda. (EHL).

A companhia foi contratada pela Agência Goiana de Transporte e Obras (Agetop) para pavimentar 12 quilômetros da GO-425. A obra na rodovia custou R$ 14,4 milhões ao governo de Goiás. Além desse trecho, um braço de 1,5 quilômetro, que leva à sede da fazenda de Liliane, recebeu asfalto.

Se houve desvios, é preciso verificar. Não é possível admitir esse tipo de abuso com recursos públicos. Tanta gente precisando de dinheiro, e os políticos esbanjando. Asfalto é um produto caríssimo"
Ermelino Jorge, 55 anos, administrador da fazenda Estância 3M

O proprietário da fazenda Campo Largo 2, Gabriel Claudino Silva, 51 anos, espera que o fato seja apurado. “Se a obra foi feita com dinheiro público, tem que atuar em cima. Se descobrirem irregularidades, os responsáveis têm que ser presos e têm que devolver o que é nosso”, criticou.

Outros moradores da região também reclamaram. Um deles disse que, durante a obra na GO-425, solicitou à E.H.L que fosse colocado asfalto próximo à sua fazenda, mas ouviu uma resposta negativa. “Pedi que jogassem cascalho nesse trecho pequeno, mas eles se negaram a fazer”, explicou o dono de uma pequena propriedade ao longo da rodovia. Ele pediu para ter o nome preservado.

Segundo o fazendeiro, as alterações nas rodovias GO-425 e GO-520 foram finalizadas em agosto, mas um fato chamou atenção: “Eles terminaram as obras em agosto e voltaram com as máquinas em novembro, para iniciar os trabalhos na fazenda dela [Liliane]”.

Uma mulher que mora em outra propriedade, a poucos quilômetros da fazenda de Liliane, criticou a situação. “As coisas para quem tem muito dinheiro são fáceis”, disse. Ela também pediu para não ter o nome divulgado.

Obra na fazenda
No fim de novembro, o Metrópoles revelou que Liliane pegou carona em uma pavimentação pública e teve um trecho de sua propriedade asfaltado pela E.H.L. Mesmo após sucessivos questionamentos, a deputada não apresentou qualquer boleto que comprove o pagamento da reforma, até o presente momento. Já a companhia disse que fez os reparos em regime de permuta em troca de cascalho. No entanto, também não apresentou documentos.

Dias após o episódio vir à tona, a obra na fazenda de Liliane foi interrompida. Na entrada da propriedade, ainda é possível ver materiais de construção, como areia e brita. O meio-fio continua inacabado. Procurada pelo Metrópoles, a assessoria da distrital disse que não iria comentar o caso.

Ministério Público investiga o caso
A denúncia feita pelo Metrópoles levou o Ministério Público de Goiás (MPGO) a investigar o caso. Em despacho, a promotora Marlene Nunes Freitas Bueno exigiu que o presidente da Agetop, Jayme Eduardo Rincón, apresente cópia integral, em mídia digital, do contrato firmado entre o Executivo daquele estado e a E.H.L.

Segundo o MPGO, a Agetop foi notificada em 4 de dezembro e tem 10 dias corridos para se manifestar. A empresa, por sua vez, negou que já tenha recebido qualquer aviso.

No Distrito Federal, a ONG Adote um Distrital encaminhou requerimento ao governo goiano, no dia 1º/12, solicitando acesso ao contrato das obras de asfaltamento da GO-425. Um pedido de explicações também foi protocolado no gabinete da parlamentar.

O assessor de projetos da ONG, Asafe Mello Cerqueira, entende que a recusa de Liliane, da E.H.L. e da Agetop em dar publicidade ao contrato da obra fortalece os rumores de que a intervenção tenha sido feita com dinheiro público.

“Ela é uma representante do povo e precisa esclarecer se existe ou não essa correlação entre a obra pública e aquela feita em sua propriedade. Com relação ao governo de Goiás, pedimos cópias dos contratos via Portal da Transparência”, disse Asafe.

Os próprios colegas de Câmara Legislativa cobram explicações da deputada. “Se confirmada a veracidade dessa conduta não republicana, a Casa será obrigada a avaliar se cabe um processo por quebra de decoro”, disparou Ricardo Vale (PT), presidente da Comissão de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara.

“Se pagou com o dinheiro dela, por que está sofrendo esse desgaste? Por que não apresenta os boletos e encerra a história? Tenho o maior respeito por ela, mas essa demora em se explicar não pega bem”, complementou o também petista Chico Vigilante.

Empresa enrolada
A Eletro Hidro Ltda. coleciona problemas nas obras que executa Brasil afora. Em 2016, o proprietário da empresa, Wilmar Oliveira de Bastos, foi preso pela Polícia Federal, acusado de integrar uma organização criminosa que fraudava licitações de terraplanagem e pavimentação em Tocantins. Ele e outras 20 pessoas também detidas na Operação Ápia podem ter causado prejuízos superiores a R$ 1 bilhão.

Todas as empresas de Wilmar Bastos têm sede em Tocantins. Conhecido como “Chatão”, ele é responsável por grandes obras no estado. Entre elas, a da alça viária Norte-Sul, em Palmas, que ficou paralisada pelas investigações da Operação Ápia. Esse contrato foi firmado no valor de R$ 129 milhões.

Wilmar também é acusado de ter fechado um contrato de R$ 52 milhões para asfaltar vários municípios de Palmas: em razão da suposta má qualidade do material utilizado, o piso começou a rachar em poucos meses.

 

 

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