Vítima descobriu golpe do lanterneiro após levar multa em Santa Catarina
O golpista rodou com o veículo no estado e ainda depenou outro carro deixado pelo cliente na oficina
atualizado
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Um lanterneiro, que se apresentava como “martelinho de ouro”, preso nessa quinta-feira (26/2) pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), usou o carro de um cliente para viajar do DF até Santa Catarina sem que o dono soubesse. A vítima apenas descobriu o que teria acontecido dias após recuperar o veículo e receber uma multa de outro estado.
Ao Metrópoles, José* contou que procurou o lanterneiro após bater em outro veículo na altura da Esplanada dos Ministérios, no Plano Piloto. Temendo uma cobrança alta do seguro, por ter sido o responsável pelo acidente, o homem resolveu procurar uma oficina. “Foi o meu erro. Por não usar o seguro, acabei me colocando numa situação bem difícil”, começou.
“No dia seguinte [ao acidente], entrei em contato com um mecânico que já tinha me atendido no passado. Ele sempre foi uma pessoa muito simpática. E como todo estelionatário, ele precisava ser assim. Como [no primeiro serviço] eu pude fazer negociação de preço, [após a batida] ele foi a primeira pessoa em quem pensei. Eu não sabia da fama dele na internet”, começou.
José, então, combinou a entrada do conserto do carro com o lanterneiro – no valor de R$ 3 mil, e pagou integralmente o valor do prejuízo do outro veículo. “Eu deixei o carro com ele e falei:’ Vou viajar uma semana no recesso e na volta eu pego com você, beleza?’ Ele falou que esperaria a chegada da peça, me entregaria o carro na semana seguinte e abateria [o valor total] se eu antecipasse o pagamento. Foi nisso que ele me pegou”, narrou.
Quando a vítima voltou do recesso e foi buscar o automóvel, o lanterneiro passou a dar desculpas: “Ele dizia que o carro ainda não estava pronto e que a peça não tinha chegado”.
Um mês depois, José entrou novamente em contato e informou que buscaria o veículo com um guincho. “Aí ele falou que ia entregar o carro em uma terça-feira ao meio-dia. Chegou terça, ele deu outra desculpa. Então eu disse: ‘Vou passar com o guincho”, contou. “O carro ficou lá um mês e meio. Eu deixei o carro em 10 de dezembro e só consegui tê-lo de volta em 23 de janeiro.”.
Dias após reaver o veículo, a vítima descobriu que o automóvel teria sido levado a Santa Catarina, onde recebeu uma multa. “A última conversa que eu tive com ele [lanterneiro] foi sobre essa multa. Eu só falei: ‘Agora eu só converso com você na Justiça”, narrou José, que também teria notado bluetooths de outras pessoas conectados ao carro, bem como conchinhas – comumente encontradas em praias, no interior do veículo.
“Quando eu deixei o carro, ele estava com 18 mil km rodados, mas voltou com 21 mil km. Eu falei que não sabia nem se iria conseguir fazer a revisão gratuitamente na concessionária, ai ele [lanterneiro] pediu para eu levar o carro lá [na oficina] para ele passar um imã que mexeria no odômetro. Ele queria que eu deixasse o carro lá outra vez para fazer essa coisas”, desabafou.
Por fim, a vítima procurou o Procon e a Polícia Civil do Distrito Federal para registrar boletins de ocorrência.
O segundo carro envolvido no acidente com José, que também foi deixado aos cuidados do lanterneiro, não voltou inteiro ao dono. O veículo foi depenado, conforme pode ser visto na imagem abaixo.

À reportagem José contou que gostaria de alertar as pessoas em relação ao golpe. Segundo ele, não se deve pagar por um serviço à vista. O homem também reiterou a importância de sempre acionar o seguro.
“Esses R$ 3 mil que eu depositei via Pix, não sei se vou conseguir resgatar. Mas tudo isso começou com um erro meu de conduta. No início do processo, eu acionei uma oficina ao invés do seguro e paguei antecipado. Não se faz isso, né? Eu errei duas vezes”, finalizou.
* Nome fictício para resguardar a identidade da vítima.
O caso
Preso por agentes da 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte), o lanterneiro é investigado por comandar um esquema de crimes patrimoniais que fez dezenas de vítimas no Distrito Federal.
Segundo a delegada Laryssa Soraes, o suspeito que atuava em um estabelecimento na 405 da Asa Norte exigia pagamento antecipado, atrasava os prazos de entrega e muitas vezes não executava o serviço.
Os carros iam para as oficinas para reparos; enquanto isso, o lanterneiro entregava os veículos a terceiros sem autorização dos proprietários, causando prejuízos financeiros e transtornos às vítimas.
Na prática, o homem emprestava o carro dos clientes para funcionários e outras pessoas para que estes utilizassem o veículo no DF e até viajassem.
“As vítimas relatam que ao reaver os veículos, observavam que o carro estava com diversos quilômetros a mais”, informou a delegada.
A informação é que o investigado cometia o crime desde 2016 e só neste ano, 15 ocorrências já foram registradas contra ele. No total, a Polícia Civil já identificou 40 vítimas — número que pode crescer com o avanço da investigação.
A Polícia Civil do Distrito Federal destaca que outras possíveis vítimas devem procurar a 2ª DP para registrar ocorrência. A colaboração da população é fundamental para o completo esclarecimento dos fatos e para a responsabilização do investigado.
