Veja conteúdo de livro que ataca super-ricos e causou discórdia no DF
Criada em dezembro de 2020 pelo cartunista Renato Aroeira, as tirinhas são publicadas semanalmente no site do Instituto Justiça Fiscal (IJF)

A cartilha que defende a tributação de super-ricos e causou alvoroço nas redes sociais ao ser apresentada por uma professora de sociologia a alunos do Centro de Ensino Médio da Asa Norte (Cean), na 607 Norte, é um compilado de histórias em quadrinhos de uma personagem chamada Niara. Criada em dezembro de 2020 pelo cartunista Renato Aroeira, as tirinhas são publicadas semanalmente no site do Instituto Justiça Fiscal (IJF) e faz parte da Campanha Tributar os Super-Ricos.
O livro tem, ao todo, 53 desenhos que abordam, em sua maior parte, o tema da cobrança de impostos no Brasil. Críticas ao racismo, ditadura e ao presidente Jair Bolsonaro (PL), frequentemente chamado de “Bozo”, também são recorrentes.
As histórias são acompanhadas de pequenos textos que visam contextualizar e reforçar o assunto tratado.
Confira o inteiro teor livro
cartilha_niara_2_23_12_livreto by Metropoles on Scribd
O conteúdo chamou a atenção do deputado distrital Robério Negreiros (PSD), vice-líder do GDF na Câmara Legislativa (CLDF). Ao ter conhecimento do teor das tirinhas, ele enviou um ofício ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) pedindo apuração e tomada de providências.
Segundo ele, “o mais preocupante, é a imagem da Niara, uma personagem criança, que trata o assunto de maneira bem lúdica, mas que passa mensagens distorcidas e falsas, e que associam o sucesso, ao roubo e trapaça”. O parlamentar entende que estudantes expostos ao conteúdo “estão sendo manipulados e explorados politicamente por esse professor”.
Ele afirma ainda que, “ao estigmatizar determinadas perspectivas políticas e ideológicas, a doutrinação cria as condições para um tipo de constrangimento muito menos sutil: o bullying político e ideológico”.
Membros da Campanha repudiam repercussão
Nessa quarta-feira (27/4), após toda a repercussão nas redes sociais, os responsáveis pela Campanha Tributar os Super-Ricos repudiaram, por meio de nota, a maneira com que o assunto foi tratado. “O ataque desferido contra as propostas de justiça fiscal e social, representadas pela personagem Niara, bem como a um professor do Ensino Médio do Distrito Federal que disponibilizou o livreto para a reflexão de seus alunos, é um ataque a milhões de pessoas invisibilizadas pela narrativa de meritocracia e de idolatria à super riqueza num dos países mais desiguais do mundo”, diz.
O texto ainda questiona o motivo pelo qual não seria pertinente discutir desigualdade social em sala de aula. “Estudos científicos nacionais e internacionais demonstram que as grandes riquezas são isentas ou subtributadas no Brasil e que proporcionalmente os pobres pagam mais tributos. Mostrar e discutir isso em sala de aula é assim tão assustador?”
Secretaria de Educação diz que cartilha foi distribuída sem conhecimento da direção
Segundo a Secretaria de Educação, “a cartilha foi distribuída por um professor de sociologia, sem o conhecimento da direção da escola, da Coordenação Regional de Ensino nem da Subsecretaria de Ensino Básico”. Veja a íntegra da nota da pasta:
“A Secretaria de Educação tomou conhecimento da distribuição de uma cartilha com apologia política no Centro de Ensino Médio da Asa Norte (Cean) e encaminhou o caso imediatamente à Corregedoria.A referida cartilha não só faz oposição aberta ao atual presidente da República como promove uma dirigente sindical que se declara pré-candidata ao Governo do Distrito Federal por um partido de oposição.
A Secretaria de Educação esclarece que a cartilha foi distribuída por um professor de sociologia, sem o conhecimento da direção da escola, da Coordenação Regional de Ensino nem da Subsecretaria de Ensino Básico.
A Secretaria repudia um ato como esse e informa que não permitirá proselitismo político de nenhuma espécie nas escolas públicas do DF e que fará cumprir fielmente o Regimento da Rede Pública de Ensino do Distrito Federal, que em seu artigo 304 estabelece como “vedado ao professor”:
I – envolver o nome da unidade escolar em manifestações estranhas às suas finalidades educativas;
II – ferir a suscetibilidade dos estudantes no que diz respeito às convicções políticas, religiosas, etnia, condição intelectual, social, assim como no emprego de apelidos e/ou qualificações pejorativas;
III – fazer apologia à política partidária no interior da unidade escolar.”
O Metrópoles apurou que, nessa terça, houve uma reunião no colégio para discutir o caso. Segundo ata da reunião, escrita à mão e assinada pelos gestores da escola, o material teria sido confeccionado pelo Sindicato dos Professores do DF (Sinpro-DF).
O professor teria dito que a cartilha foi usada em aula como complemento, aproveitando dados e números do conteúdo de desigualdade e concentração de renda que estava sendo ministrado. Ainda segundo a ata, após a reunião, o docente se comprometeu a recolher o material para não infringir a legislação.
Veja:



O que diz o Sinpro
O Metrópoles também procurou o Sinpro para um posicionamento. De acordo com Rosilene Corrêa, diretora do sindicato, a campanha Tributar os Super-Ricos é “nacional, coordenada por profissionais que entendem de tributação, professores de universidades e que tem algumas entidades, como é o caso do Sinpro, como parceiras”.
Rosilene, que representa o Sinpro na coordenação da campanha, diz que a cartilha não faz defesa partidária. “O cartunista que é contratado pela campanha cria as tirinhas da Niara semanais. Não há nenhum vínculo partidário, nenhum vínculo com a pessoa da Rosilene. Essa cartilha foi feita quando juntamos as tirinhas e montamos a revista”, argumenta.
“Neste caso, o professor utilizou o conteúdo, que é riquíssimo e superatual para ajudar no trabalho em sala de aula. Não é uma campanha de oposição ao governo, mas uma campanha de combate à desigualdade no Brasil. Além disso, o Sinpro não fez a distribuição para as escolas de forma orientada. Nós entregamos em assembleia e quem se interessou buscou mais com a gente”, completou Rosilene Corrêa.
O que diz a Associação de Pais
Já para a Associação de Pais e Alunos do DF (Aspa-DF), a escola deve ser um espaço neutro no campo da política. “Nós não admitimos qualquer tipo de interferência como essa dentro da escola. Os pais precisam tomar conhecimento do que está sendo ensinado em sala de aula. A escola não é um espaço para se fazer política”, pontuou Alexandre Veloso, presidente da entidade.
“Aguardamos um posicionamento da Secretaria de Educação por meio de sua Corregedoria para que esse caso possa ser amplamente esclarecido”, afirmou.
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